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CHAPODIPLOMACY: Diplomacia económica e benefícios mútuos entre moçambique e botswana

Por Elcidio Bachita

A visita de Estado do Presidente Daniel Chapo ao Botswana, realizada de 28  a 30 de Setembro, no contexto das celebrações dos 60 anos da independência daquele país africano, ocorreu num momento particularmente importante para a evolução das relações económicas entre Moçambique e Botswana. Mais do que reafirmar as relações político-diplomáticas, os históricos laços de amizade e solidariedade entre as duas nações, a visita colocou no centro da agenda a necessidade de transformar a cooperação política em comércio, investimento e projectos económicos concretos.

É neste contexto que se pode enquadrar o conceito de ChapoDiplomacy, aqui entendido como uma abordagem de diplomacia económica orientada para resultados, através da qual as relações externas de Moçambique procuram gerar oportunidades concretas de investimento, comércio, infraestruturas, turismo, industrialização e integração regional.

O conceito assenta numa premissa fundamental: A diplomacia económica deve procurar transformar as vantagens comparativas dos países em benefícios mútuos.

Moçambique e Botswana apresentam condições particularmente favoráveis para esse tipo de cooperação. Moçambique possui acesso ao Oceano Índico, importantes portos e corredores ferroviários e rodoviários, recursos energéticos e minerais e uma localização estratégica na África Austral. Botswana, por sua vez, é uma economia sem litoral, com uma importante indústria mineira, particularmente diamantífera, e necessidade de acesso competitivo aos mercados internacionais.

Esta complementaridade permite construir uma relação na qual o desenvolvimento de um país pode criar oportunidades económicas para o outro.

Dimensão económica e complementaridade estrutural

Os dados disponíveis demonstram que se trata de duas economias com dimensões relativamente próximas em termos de Produto Interno Bruto, mas com estruturas económicas e níveis de rendimento bastante diferentes.

Segundo o Banco Mundial, o PIB do Botswana situa-se em cerca de USD 19,93 biliões, enquanto o PIB de Moçambique ronda nos USD 22.34 biliões na série mais recente disponível nessa base.

A diferença mais significativa encontra-se, contudo, no PIB per capita e na estrutura produtiva. Botswana apresenta um rendimento per capita muito superior, enquanto Moçambique possui uma população e um mercado interno muito maiores.

Esta realidade cria possibilidades de complementaridade.

Moçambique pode oferecer ao Botswana acesso ao mar, infraestruturas portuárias, energia, recursos naturais e oportunidades de investimento. Botswana pode contribuir através de capital, experiência empresarial, conhecimento especializado, tecnologia e procura de bens e serviços.

A questão central passa, portanto, por transformar estas diferenças em vantagens económicas partilhadas.

Comércio bilateral: Uma relação com potencial de expansão

O comércio é um dos instrumentos mais directos da diplomacia económica.

Segundo os dados da Organização Mundial do Comércio, Botswana importou USD 6,99 mil milhões em bens em 2024, dos quais 2,2% tiveram Moçambique como origem, equivalentes a aproximadamente USD 152 milhões. Por outro lado, segundo dados apresentados pelo Presidente Chapo, entre 2021 e 2025, Moçambique exportou para o Botswana bens avaliados em cerca de USD 79 milhões e importou aproximadamente USD 13 milhões. Estes níveis de comércio bilateral continuam, contudo, relativamente reduzidos face ao potencial económico dos dois países.

Os dados disponíveis demonstram que Moçambique já possui uma presença no mercado de importações do Botswana, embora exista espaço significativo para aprofundar essa relação. O potencial de expansão encontra-se, sobretudo, na diversificação da pauta comercial e no aumento do valor acrescentado dos produtos transaccionados.

A relação económica não deve limitar-se a combustíveis ou matérias-primas. Há espaço para aumentar o comércio de produtos agrícolas e agroprocessados, minerais transformados, produtos industriais, equipamentos, serviços e outros bens de maior valor acrescentado.

A existência de fluxos energéticos demonstra que a integração já possui uma dimensão concreta. A expansão destes fluxos, acompanhada pelo desenvolvimento de novos produtos e serviços, pode aumentar a interdependência económica entre os dois países.

A diplomacia económica deve, neste sentido, procurar criar condições para que mais empresas moçambicanas tenham acesso ao mercado tswana e para que empresas do Botswana encontrem em Moçambique oportunidades de investimento e distribuição.

Portos e corredores: Transformar a geografia em economia

A principal complementaridade estratégica entre Moçambique e Botswana encontra-se na logística.

Moçambique dispõe de uma rede portuária com importância regional. Segundo os dados estatísticos dos CFM referentes a 2024, a capacidade anual indicada é de aproximadamente 37 milhões de toneladas para o Porto de Maputo, 25,4 milhões para o Porto da Beira e 10 milhões para o Porto de Nacala, além de 22 milhões de toneladas para Nacala-à-Velha.

Estes activos conferem a Moçambique uma posição estratégica na ligação entre o interior da África Austral e os mercados internacionais.

Para Botswana, a utilização dos portos nacionais pode representar uma oportunidade de diversificação das suas rotas comerciais.

Para Moçambique, o aumento do trânsito de mercadorias provenientes do Botswana pode gerar maior utilização dos portos, caminhos-de-ferro, estradas, armazéns, serviços aduaneiros, abastecimento de combustíveis e outros serviços logísticos.

O benefício, portanto, não é unilateral.

O próprio Presidente Duma Boko tem manifestado interesse em aprofundar o acesso do Botswana às infraestruturas moçambicanas. Durante a visita do Presidente botswanês a Moçambique em 2025, foram visitados os portos de Maputo e Nacala e a área de Ponta Techobanine. A actual agenda bilateral continua a colocar logística, transportes e conectividade regional entre as prioridades.

Corredores e Ponta Techobanine

A questão dos corredores constitui uma dimensão central da ChapoDiplomacy.

Moçambique possui três grandes sistemas de corredores — Maputo, Beira e Nacala — que conectam os portos aos países e regiões do interior da África Austral. A Organização Mundial do Comércio reconhece os corredores de Maputo, Nacala e Beira como instrumentos para promover comércio, investimento, actividades de maior valor acrescentado e competitividade regional.

Neste contexto, o projecto de Ponta Techobanine assume particular importância.

O projecto envolve Moçambique, Botswana e Zimbabwe e prevê uma ligação ferroviária de aproximadamente 1.700 quilómetros até à costa moçambicana. Estimativas apresentadas pelas autoridades botswanesas colocam o investimento global do projecto em cerca de USD 6,5 mil milhões.

Para Botswana, o projecto pode proporcionar uma alternativa adicional de acesso ao Oceano Índico e aos mercados internacionais.

Para Moçambique, pode significar maior utilização da infraestrutura portuária e ferroviária, novas receitas logísticas e oportunidades de investimento.

Para Zimbabwe, constitui uma possibilidade de reforçar a conectividade ferroviária e comercial.

Assim, Techobanine deve ser entendido não apenas como um projecto bilateral, mas como uma infraestrutura de integração económica regional.

Investimento: Passar do comércio à produção

O verdadeiro potencial da diplomacia económica está em transformar relações comerciais em relações de investimento.

Moçambique possui oportunidades em energia, mineração, agricultura, turismo, logística, infraestruturas e indústria. O Presidente Chapo tem defendido precisamente uma maior participação do sector privado na diversificação económica, incluindo nos sectores de energia, agricultura, turismo, mineração, infraestruturas e logística.

Do lado tswana, existem empresas e instituições com experiência em mineração, pecuária, turismo, energia e serviços.

A aproximação entre os dois países pode, portanto, estimular investimento cruzado, joint ventures, transferência de tecnologia e desenvolvimento de fornecedores locais.

A prioridade deve ser passar de uma relação baseada na exportação de matérias-primas para uma relação baseada na produção conjunta e agregação de valor.

Esta lógica é particularmente importante no sector mineiro.

Botswana possui experiência significativa na indústria diamantífera, enquanto Moçambique possui importantes recursos minerais. A cooperação pode abranger tecnologia, formação, regulação, processamento, conteúdo local e desenvolvimento de cadeias de fornecimento.

Turismo: Uma nova fronteira da diplomacia económica

O turismo merece uma posição específica na relação bilateral porque foi directamente identificado pelos dois Chefes de Estado como área de cooperação.

Durante o Fórum de Negócios Moçambique–Botswana, realizado no contexto da visita de Estado, o Presidente Daniel Chapo apresentou quatro plataformas de cooperação económica, incluindo logística e transportes, agricultura e agroprocessamento, turismo e industrialização. No domínio turístico, defendeu a criação de circuitos integrados entre os destinos de conservação do Botswana e os destinos costeiros e de biodiversidade de Moçambique.

Esta visão apresenta uma importante lógica económica.

Botswana possui uma marca turística internacional associada à natureza, conservação e vida selvagem, particularmente em destinos como o Delta do Okavango. Moçambique possui uma extensa costa do Índico, praias, ilhas, biodiversidade marinha e destinos como Vilankulo, Inhambane, Pomene e Inhassoro.

Em vez de os dois países competirem pelos mesmos turistas, podem desenvolver produtos turísticos complementares.

Um turista internacional poderia combinar uma experiência de natureza e vida selvagem no Botswana com uma experiência costeira em Moçambique.

Isto cria uma cadeia de valor que envolve aviação, hotéis, restaurantes, transportadores, operadores turísticos, agências de viagens, comércio, artesanato e serviços financeiros.

O Presidente Duma Boko também colocou o turismo entre os sectores estratégicos da cooperação económica com Moçambique. No dia 28 de Setembro de 2026, os dois países assinaram um Memorando de Entendimento sobre Turismo, juntamente com instrumentos noutras áreas.

A importância deste acordo é reforçada pelo próprio debate económico do Botswana, que identifica o turismo como sector de geração de emprego, divisas e oportunidades empresariais e como instrumento de diversificação para além dos minerais.

Para Moçambique, a aposta é igualmente estratégica. O Presidente Chapo tem defendido o turismo como um dos motores da diversificação económica, com capacidade para atrair investimento, criar emprego e reduzir a dependência de sectores extractivos.

O turismo pode, assim, constituir uma das áreas mais visíveis da diplomacia económica bilateral.

Mineração: Botswana como parceiro de conhecimento

Existe ainda uma área onde a cooperação pode assumir uma dimensão particularmente interessante: a mineração.

O Botswana acumulou experiência internacional na exploração e gestão da indústria diamantífera. Moçambique possui importantes recursos minerais, mas enfrenta o desafio de aumentar o valor acrescentado produzido internamente.

Durante a visita, Chapo manifestou interesse em aproveitar a experiência do Botswana para melhorar a legislação mineira e aumentar a capacidade de produção e exportação, mas também para promover a industrialização e o processamento local dos recursos minerais.

Este ponto merece atenção.

Durante demasiado tempo, a discussão sobre recursos naturais em África esteve concentrada na quantidade exportada. A questão contemporânea é diferente: quanto valor permanece no país produtor?

Uma parceria Moçambique-Botswana poderia, neste domínio, concentrar-se em regulação, formação de quadros, tecnologias mineiras, gestão de recursos, transformação local e desenvolvimento de fornecedores nacionais.

A cooperação poderia assim passar da simples exportação de matérias-primas para a construção de cadeias de valor.

Benefícios económicos mútuos

A análise dos diferentes sectores permite identificar benefícios potenciais para os dois países.

Para Moçambique, o aprofundamento da relação com Botswana pode contribuir para:

  • aumentar a utilização dos portos e corredores;
  • elevar as receitas dos serviços logísticos;
  • atrair investimento tswana;
  • ampliar as exportações;
  • desenvolver cadeias de valor;
  • criar emprego;
  • aumentar a actividade turística;
  • fortalecer a integração económica regional.

Para Botswana, a cooperação pode contribuir para:

  • diversificar as rotas de comércio externo;
  • melhorar o acesso aos portos do Índico;
  • aumentar a segurança logística e energética;
  • reduzir potenciais custos de transporte;
  • criar novos mercados para empresas tswanas;
  • atrair oportunidades de investimento em Moçambique;
  • desenvolver produtos turísticos integrados.

O benefício regional pode ser ainda maior.

Uma ligação mais eficiente entre Botswana e os portos moçambicanos pode fortalecer os corredores da SADC e aumentar a competitividade da região como espaço integrado de comércio e investimento.

Da diplomacia dos acordos à diplomacia dos resultados

Um aspecto particularmente relevante da actual relação é a preocupação dos dois países com a implementação.

A nona sessão da Comissão Permanente Conjunta de Cooperação identificou 18 projectos de acordos e memorandos em diferentes áreas, incluindo turismo, comércio, ciência e tecnologia, educação, saúde e outros sectores. As autoridades dos dois países defenderam mecanismos de acompanhamento, responsabilidades claras e prazos para transformar os compromissos em resultados.

Este aspecto é fundamental.

A diplomacia económica não deve ser avaliada apenas pelo número de acordos assinados. Deve ser avaliada pelos resultados produzidos.

Neste sentido, a recente criação de uma Comissão Binacional Moçambique–Botswana poderá proporcionar uma estrutura institucional de maior nível para acompanhar a cooperação.

Conclusão

Os indicadores económicos, comerciais e infraestruturais demonstram que Moçambique e Botswana possuem condições objectivas para aprofundar a sua integração económica.

Moçambique oferece acesso ao Oceano Índico, portos, corredores, recursos energéticos e minerais. Botswana oferece um mercado, capital, experiência empresarial e uma economia que procura diversificar as suas ligações comerciais e produtivas.

O comércio já existente pode ser ampliado. Os corredores podem ser mais utilizados. O investimento pode ser aprofundado. A cooperação energética pode crescer. A mineração pode gerar transferência de conhecimento. E o turismo pode criar produtos regionais capazes de ligar a conservação e vida selvagem do Botswana às praias, ilhas e biodiversidade de Moçambique.

É neste contexto que ChapoDiplomacy na minha opinião, pode ser entendida como uma diplomacia económica orientada para a criação de valor partilhado.

A sua essência está em transformar geografia em conectividade, conectividade em comércio, comércio em investimento, investimento em produção, produção em emprego e cooperação em prosperidade partilhada.

A relação Moçambique-Botswana oferece uma oportunidade concreta para colocar esta abordagem em prática.

Elcidio Bachita– É um economista e professor universitário moçambicano, Licenciado em Economia pela Universidade de Pune na Índia e Mestre em Administração de Empresas (MBA) pela Universidade de Suffolk no Reino Unido

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