A transferência do SERNIC para a Procuradoria-Geral da República (PGR), o aprofundamento da cooperação internacional e uma série de assassinatos selectivos de agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) e do próprio SERNIC marcam o período em que Moçambique conseguiu interromper os raptos urbanos, tendo completado um ano sem novos casos a 7 de Outubro. Embora os dois primeiros factores integrem a resposta institucional ao crime organizado, as mortes de agentes alimentam suspeitas, amplamente difundidas na opinião pública, de que alguns dos visados estariam ligados às redes de rapto – uma hipótese que, como é óbvio, o Governo nunca confirmou oficialmente.
Texto: Hélio de Carlos
A transferência da tutela do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) para a Procuradoria-Geral da República (PGR), o desmantelamento de células criminosas, o reforço da cooperação internacional e uma sucessão de assassinatos de agentes da Polícia e do próprio SERNIC integram o contexto em que Moçambique completou, a 7 de Outubro, um ano sem registo de novos raptos urbanos. O período coincide com uma mudança significativa no cenário de segurança, depois de mais de uma década de sequestros que atingiram sobretudo empresários e as suas famílias nas cidades de Maputo e Matola.
Entre as medidas institucionais adoptadas pelo Executivo, destacase a transferência da tutela do SERNIC do Ministério do Interior para a PGR, apresentada como uma forma de reforçar a articulação entre a investigação criminal e a acção penal. A alteração foi acompanhada por mudanças na direcção do serviço e por operações contra redes suspeitas de envolvimento em raptos.
Fontes ligadas à investigação indicam que, nos últimos 12 meses, foram desmanteladas pelo menos quatro células criminosas e detidas mais de 30 pessoas. Entre os suspeitos encontram-se agentes da Polícia em exercício de funções, advogados e um antigo funcionário bancário acusado de monitorizar os movimentos financeiros das vítimas.
Outro eixo da resposta foi o reforço da cooperação internacional, sobretudo com a África do Sul e a Interpol, para rastrear os valores pagos em resgates e identificar os integrantes das redes criminosas. O caso de Francisco Cera, empresário de nacionalidade portuguesa raptado em Maputo a 7 de Outubro de 2025 e libertado em Março de 2026, terá sido resolvido com recurso a esse tipo de rastreio.
Mas, para além das medidas oficialmente apresentadas, há outro fenómeno que marcou o período: a morte de agentes das forças de segurança, incluindo elementos do SERNIC, em circunstâncias que alimentaram suspeitas sobre possíveis ligações entre os assassinatos e as redes de rapto.
A face obscura do combate aos raptos
Ao longo do período em análise, foram noticiados vários assassinatos de agentes da Polícia e do SERNIC, alguns dos quais em ataques a tiros. A sucessão de mortes alimentou, na opinião pública, a interpretação de que alguns dos agentes abatidos poderiam estar envolvidos em redes criminosas, incluindo as que se dedicavam ao rapto de empresários.
A hipótese ganhou força num contexto em que as próprias autoridades já reconheceram a infiltração de agentes das instituições de segurança em actividades criminosas. Em 2021, por exemplo, o SERNIC anunciou a expulsão de 11 dos seus agentes por envolvimento em diversos crimes, entre os quais raptos, extorsões e roubos agravados. A suspeita de infiltração não se limita ao SERNIC.
Ao longo dos anos, informações divulgadas pela imprensa apontaram também para o envolvimento de elementos da Polícia da República de Moçambique (PRM), incluindo efectivos de unidades especiais, em redes de sequestro. Entre as unidades referidas no debate público estão a Unidade de Intervenção Rápida (UIR) e o Grupo de Operações Especiais (GOE).
Este envolvimento é particularmente relevante para compreender a complexidade do fenómeno. Agentes com acesso a informações operacionais, meios de comunicação, armas e técnicas de vigilância podem, quando actuam em conluio com organizações criminosas, facilitar a identificação, o seguimento e a captura das vítimas, além de dificultar as investigações.
Foi neste ambiente que se consolidou uma teoria amplamente difundida na opinião pública: a de que alguns dos agentes assassinados durante o período poderiam ter sido visados precisamente por causa do seu alegado envolvimento em redes de rapto. Nesta interpretação, as mortes teriam contribuído para desarticular ligações entre grupos criminosos e sectores das forças de segurança.
A hipótese é controversa e exige cautela. Não há, nas informações aqui reunidas, prova que permita estabelecer uma relação directa entre os assassinatos de agentes, o alegado envolvimento destes em raptos e a redução dos casos. Também não existe confirmação oficial de que as mortes tenham resultado de uma estratégia deliberada para combater o fenómeno.
A ideia de que tais acções teriam contado com o beneplácito das mais altas estruturas do Executivo circula igualmente no espaço público e tem sido associada a interpretações sobre a condução do combate aos raptos. Contudo, sem documentação verificável ou declarações identificáveis que sustentem essa alegação, não é possível apresentá-la como facto.
A questão permanece, por isso, no domínio das suspeitas e das interpretações que acompanham a sucessão de assassinatos. A sua clarificação dependerá de investigações capazes de determinar as circunstâncias das mortes, identificar os responsáveis e estabelecer, quando exista, a ligação das vítimas a actividades criminosas.
14 Anos de medo
Os raptos ganharam expressão em Moçambique a partir de 2011, transformando-se num dos principais factores de insegurança para o sector empresarial. Dezenas de empresários e membros das suas famílias, sobretudo da comunidade de origem asiática, mas também portugueses e moçambicanos, foram sequestrados por grupos organizados.
O padrão de actuação incluía a utilização de viaturas de alta cilindrada, por vezes com matrículas falsas, a perseguição das vítimas à saída de casa ou do local de trabalho e a exigência de resgates elevados. Os pagamentos eram, em alguns casos, efectuados em dólares e em locais previamente indicados pelos raptores.
Segundo dados atribuídos à Polícia da República de Moçambique, entre 2020 e 2024 foram contabilizados mais de 60 casos na região metropolitana de Maputo.
O impacto ultrapassou as vítimas directas. Famílias empresariais emigraram para Portugal, Dubai e África do Sul, enquanto alguns investidores adiaram projectos ou abandonaram o País. A insegurança tornou-se, assim, um obstáculo à atracção de capital, à criação de emprego e à expansão de negócios.
Governo quer recuperar a confiança
O Presidente da República, Daniel Chapo, anunciou a 8 de Outubro, durante a I Conferência Internacional de Investimentos de Tete, que o País completara um ano sem registo de novos raptos urbanos. O evento reúne mais de 500 investidores nacionais e estrangeiros.
Para o Chefe do Estado, o marco demonstra a importância de garantir condições de segurança para a actividade económica e para a protecção dos empresários e das suas famílias.
“Este marco é um marco que dá sinal concreto, que queremos um país seguro, um país onde alguém investe e não sente que a sua vida fica insegura, a vida da sua família fica insegura, a vida dos seus colegas, amigos e familiares”, afirmou.
Chapo defendeu que o Estado deve continuar a combater os raptos, a corrupção, o branqueamento de capitais e o tráfico de drogas, ao mesmo tempo que remove obstáculos burocráticos à actividade económica.
Neste contexto, anunciou a criação, na Presidência da República, do Gabinete Central de Reformas e Projectos Estratégicos, destinado a acompanhar grandes investimentos, identificar constrangimentos e contribuir para a remoção de barreiras à implementação dos projectos.
O Presidente defendeu ainda investimentos capazes de gerar emprego, formar jovens, transferir tecnologia e criar oportunidades para fornecedores nacionais.
O desafio de manter os resultados
O fim dos registos de novos raptos urbanos durante 12 meses constitui um marco importante, mas a explicação para esta evolução não deve ser reduzida a uma única medida ou a uma hipótese não comprovada.
As mudanças institucionais, as operações contra redes criminosas e a cooperação internacional integram a resposta oficial. Em paralelo, os assassinatos de agentes da Polícia e do SERNIC levantam questões que exigem esclarecimento, sobretudo perante o historial de infiltração de elementos das forças de segurança em redes criminosas.
Para consolidar os resultados, será necessário manter a prevenção, aprofundar as investigações e responsabilizar os envolvidos, tanto nas redes de rapto como em eventuais crimes cometidos por agentes do Estado.
A questão central é saber se o País conseguiu desarticular de forma duradoura a chamada indústria dos raptos ou se está perante uma interrupção cuja sustentabilidade ainda precisa de ser demonstrada. A resposta dependerá não apenas da ausência de novos casos, mas também da capacidade das instituições para garantir segurança, transparência e responsabilização.
Cabo Delgado continua a registar raptos
O balanço de um ano sem novos casos refere-se aos raptos urbanos e não significa que os sequestros tenham desaparecido de todo o território nacional. Em Cabo Delgado, os raptos continuam associados ao conflito armado e são utilizados, entre outros fins, para exigir resgates e forçar o recrutamento de pessoas.
Dados do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA), citados no relatório “Moçambique: O custo da Inacção”, apontam para um aumento de 10% dos incidentes relacionados com o conflito no primeiro semestre de 2026. No mesmo período, terão sido registados mais de 400 incidentes, incluindo homicídios, destruição de habitações, saques e raptos.
Em Muidumbe, 14 pessoas foram raptadas numa semana enquanto participavam em actividades de destilação de nipa, uma bebida tradicional local.
O contraste evidencia duas realidades distintas: enquanto Maputo e Matola assinalam um ano sem novos raptos urbanos, os sequestros associados ao conflito armado persistem no Norte do País.




