– “Guebuza foi a última liderança que tivemos”
– “Sobre Nyusi, prefiro não falar – foi a maior insignificância”
– “Chapo está a fazer uma tentativa de liderança que me parece sincera”
– Na oposição: “Venâncio Mondlane tem liderança errática”
– “O sonho de um Moçambique próspero despenhou-se em Mbuzine”
Jornalista de larga experiência, com passagens por vários órgãos de comunicação social nacionais, mas também por organizações não-governamentais, incluindo as Nações Unidas, Milton Machel abriu espaço, a poucas semanas do final de 2025, para uma conversa ampla com Dossiers & Factos, em jeito de entrevista, na qual faz um diagnóstico profundo sobre o estado do País, desde o período pós-independência até à actualidade. Entre elogios e críticas às diferentes governações, Milton Machel conclui que Moçambique está “pior que mal”, defendendo, por isso, a sua refundação. Acompanhe a entrevista no formato clássico de pergunta e resposta.
Texto: Serôdio Towo
Dossiers & Factos (D&F): Milton, comecemos por falar de si: como está, como pessoa, na vida e profissionalmente?
Milton Machel (MM): Como pessoa, estou muito bem, apesar de estar distante da minha mulher, que são-tomense, e do meu filho mais novo, que também está em São Tomé. Mesmo distante, sinto o amor, o aconchego deles todos os dias e momentos, em termos de interacção. Também tenho o calor da presença dos meus filhos cá. Sinto também o amor e o aconchego dos meus amigos de facto. Então, estou muito bem a nível pessoal. A nível profissional, não estou mal, porque estou numa fase de recomeço daquilo que vai ser o resto da minha vida em termos profissionais. Como cidadão, não estou bem, porque não consigo estar bem estando o País, Moçambique, estando a outra “minha nação”, São Tomé, estando África e estando o mundo como estão. Eu poderia dizer que estou bem comigo mesmo pela minha participação como cidadão, mas acho que não participo o suficiente para ajudar na mudança para melhor. Resumindo, estou excepcionalmente bem como pessoa, como indivíduo. Profissionalmente, como disse antes, não estou mal, e não estou bem como cidadão, mas tenho a esperança de que um dia as coisas vão melhorar.
“Moçambique está pior que mal”
D&F: Como é que avalia o seu País, Moçambique, em termos políticos, económicos e sociais?
MM: Moçambique está num ponto de inflexão, e ainda bem que está nessa fase aos seus 50 anos. Vou trazer um desafio aqui que foi feito pelo actual Presidente da República aos seus camaradas, creio que no primeiro Comité Central em que ele é entronizado, assumido como Presidente da Frelimo. Ele desafiouos a pensar num novo País, para que assumam a liderança de refazer e reconstruir Moçambique. Isso é lá para eles, da Frelimo. Como sabes, eu, apesar de ser Machel, não sou da Frelimo; acho que Machel não é património da Frelimo, mas património de Moçambique, pese-embora haja quem goste que o nome, o sangue e o apelido Machel sejam património da Frelimo. Mas, indo ao ponto, Moçambique está pior que mal. Ainda não sei definir o que é isso, mas estar pior que mal, no ponto de inflexão em que estamos, é muito bom, porque faz-nos sermos humildes, se o formos, faz-nos aceitar descer ao chão para podermos reerguernos, crescer e voltarmos a ser aquilo que prometíamos ser e nunca chegámos a ser.
D&F: Quando fala de inflexão, está a corroborar a ideia do tão propalado reset?
MM: Sim, mas eu gosto mais do termo refundação. Moçambique precisa de refundação como República e como Nação que tem muitas nações dentro de si, e como um Estado que se quer posicionar no mundo e que sempre foi estratégico na África Austral, para os Países Não-Alinhados, os do Terceiro Mundo, chamados agora de Sul Global. Aliás, também pela sua posição geopolítica, e por assunção das suas lideranças, Moçambique pode e deve assumir que não se vai reerguer, reconstruir, refundar apenas para si, mas também pela África Austral, por África e por aquilo que representa no mundo.
D&F: Acha que há condições ou sinais de que isso venha a acontecer tão-já?
MM: Acho que sim. De um lado, há uma liderança errática de Venâncio Mondlane; de outro, há esta tentativa – ainda que crua, mas que nos parece um esforço genuíno – de liderança por parte de Daniel Chapo; e há também várias lideranças nos diferentes quadrantes. Ainda que, aparentemente, estejamos perdidos e desconcertados, a verdade é que esses esforços existem. Veja-se, também, outros exemplos de lideranças que surgem nos segmentos da juventude. O que estou a dizer é que todas essas tentativas e esforços de liderança, nos vários segmentos, se se congregarem em torno de um único objectivo – fazer de Moçambique um País grande na África Austral, em África e no mundo – podem produzir resultados. Grande não no sentido de ser maior do que qualquer outro país, mas sobretudo pelo que o País tem: recursos naturais, posição geoestratégica e a peculiaridade dos moçambicanos que se destacaram em várias áreas, se entregaram ao mundo e fazem com que, quando se olha para Moçambique, se tenham essas referências. Se Moçambique honrar isso, chega lá, seja aos 50 ou aos 100 anos.
D&F: Gostaria que falasse um pouco das governações anteriores, desde Samora Machel. Está à vontade para tal?
MM: Acho que posso falar um pouco de Samora Machel. Eu sou Machel e, a partir do momento em que tive consciência de que o sou – com quatro ou cinco anos – por causa do que era a República de Samora Machel e de tudo o que eu vivia já em criança, considero que tenho alguma legitimidade para falar. Não tinha, de forma alguma, consciência política, mas, aos cinco ou seis anos, já tinha alguma noção do que representava aquela figura única. Eu sentia isso, sentia esse peso na escola. E mais: tudo o que eu vivia – o tempo das bichas, o tempo das várias carências, o da mobilização nacionalista em torno de um desígnio de sonho – eram coisas que, ainda criança, eu já começava a notar. Eu não sabia dar-lhes nomes, mas já tinha consciência de muitas delas, até porque algumas já faziam parte do meu quotidiano. Nós, aos seis anos, já fazíamos bicha para comprar isto ou aquilo; já vivíamos essas rotinas. Tudo o que tínhamos na escola primária, essas experiências todas, permitiram-me, à medida que fui crescendo, ganhar um pouco mais de consciência. Sobretudo porque comecei a ler muito cedo, e isso fez com que começasse a fixar na memória coisas que, mais tarde, aos 10 ou 11 anos, me permitiram começar a reflectir sobre elas, nomeadamente sobre o regime de Samora Machel, que foi, na avaliação mais imparcial – se é que se pode falar de imparcialidade –, um regime cuja liderança conseguiu mobilizar um sonho colectivo. Mobilizou o povo para o sonho moçambicano: de sermos uma Nação que queria ser marxista-leninista, aspirava a ser uma sociedade comunista, uma Nação de comunhão, que se estava a construir como socialista, com ideais de cooperativas, de aldeias comunais e de colectivização. Nós sonhávamos ser produtores, consumidores e exportadores daquilo que hoje se chama Made in Mozambique. Esta perspectiva de produzirmos para nós e para fora, visando a auto-suficiência – hoje uma bandeira muito evocada – para alcançarmos a independência económica e concretizarmos a independência total e completa, foi, para mim, o maior mérito da liderança de Samora Machel, com todas as vicissitudes, erros e falhas. Havia um sonho moçambicano que, para mim, despenhou-se no dia 19 de Outubro, nas colinas de Mbuzine.
D&F: Relativamente a Joaquim Chissano, o que tem a destacar?
MM: Uns chamam-no o timoneiro da paz, mas, do meu ponto de vista, ele trouxe algo que Samora Machel já estava a começar: o posicionamento internacional de Moçambique. Há quem diga que esse posicionamento, no tempo de Chissano, foi no sentido de pedinchar: a integração no Clube de Paris, a adesão à iniciativa HIPC (Highly Indebted Poor Countries), de alívio da dívida dos países altamente endividados, a entrada efectiva no FMI, as reformas, os programas de reabilitação e de reestruturação económica, o famoso PRE e as privatizações. Mas penso que há aqui um aspecto que muitas vezes se perde de vista. Moçambique posiciona-se a nível internacional porque Chissano é, na verdade, o pai da diplomacia moçambicana, ainda na era de Samora Machel. A liderança de Chissano internacionalizou Moçambique. E isso coincidiu com algo muito positivo: o aparecimento de Lurdes Mutola, que se tornou a embaixadora mais fácil, mais acessível e mais expedita do País. A isso somaram-se as vitórias que já vinham do final do tempo de Samora, no basquetebol, mas que se tornaram mais visíveis no período de Chissano, bem como a projecção da Companhia Nacional de Canto e Dança. Todos esses e outros são embaixadores – ditos embaixadores da cultura –, embaixadores do desporto e da moçambicanidade. Para dizer que Joaquim Alberto Chissano espalhou Moçambique, plantou Moçambique pelo mundo de uma forma mais completa do que no tempo de Samora. Nesse período, apesar de fazermos parte do Movimento dos NãoAlinhados, o alinhamento era, na prática, para o Leste. No tempo de Chissano é que começámos a ver os jogadores de futebol e, depois, de basquetebol a saírem do País, e os embaixadores da moçambicanidade a afirmarem-se nos vários quadrantes. Por isso, para mim, a marca da liderança de Chissano é sobretudo essa: o posicionamento de Moçambique a nível global. Pode discutir-se se foi ou não estratégico – até pode ter sido –, mas foi positivo nesse sentido. E ele acabou por implementar e materializar os princípios e fundamentos da diplomacia que ele próprio ajudou a construir enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros de Samora Machel.
“A liderança de Guebuza foi a última que tivemos”
MM: Passo para a liderança de Armando Emílio Guebuza. Esta foi a última liderança que tivemos, é preciso dizê-lo. Guebuza trouxe orgulho moçambicano, reforçou a auto-estima e transmitiu a consciência de que a riqueza pode ser produzida aqui, em Moçambique. Para além disso, prefiro não entrar noutros aspectos que poderiam ofuscar esta dimensão da sua liderança. Ao contrário do que muitos dizem sobre ser visionário, trazer grandes infra-estruturas ou fazer alianças com a China, a Índia e outros parceiros, Guebuza destacou-se por esta capacidade de valorizar a produção interna de riqueza e pela reorganização do Estado. Isto contrasta com a crítica que alguns fizeram à liderança anterior, acusando-a de “pedinchismo” e de depender de apoios externos, que se procurou associar à diplomacia de Joaquim Alberto Chissano. Guebuza fortaleceu a auto-estima nacional e promoveu uma reorganização do Estado, mas esta foi também utilizada para a consolidação dos interesses da Frelimo, reforçando o papel do partido na governação e na administração do País. Depois disso, não tivemos liderança, nem sei se tivemos Presidente da República durante os mandatos de Filipe Nyusi.
D&F: Já agora, vamos falar de Filipe Nyusi…
MM: Prefiro não falar porque, para mim, é a maior insignificância na história, e a historiografia de Moçambique vai permitir comprovar isso. A grande entrevista continua na próxima edição, com o multifacetado jornalista a analisar a ascensão de Daniel Chapo e os seus primeiros meses de governação.




