“Só há um político da oposição em Moçambique: VM7”
– “Saímos da economia de dumbanengue para uma de dumbanhonga”
– “Comunicação social está totalmente capturada”
Depois de, na edição passada, ter analisado os ciclos de governação desde a Independência Nacional, destacando o legado de Samora Machel, Joaquim Chissano e Armando Guebuza, o conceituado jornalista Milton Machel regressa às páginas do Dossiers & Factos para se debruçar sobre o actual Executivo, que, no seu entender, não é “só de Daniel Chapo”, mas resulta igualmente da herança política de Chissano, Guebuza, Nyusi e Filipe Paunde, configurando um Governo de “mão cheia”. Nesta segunda e última parte da entrevista, Machel sustenta ainda que, no actual xadrez político, só existe uma verdadeira figura de oposição em Moçambique, na circunstância Venâncio Mondlane, e encerra com um veemente apelo ao regresso à economia de produção, como única via para resgatar o País do ciclo de estagnação e dependência.
Texto: Serôdio Towo
Dossiers & Factos (D&F): Na análise aos diferentes ciclos de governação, não quis comentar o trabalho do Presidente Nyusi. E em relação a Daniel Chapo, que expectativas tem e que análise faz da composição do seu Governo e do desempenho do mesmo neste primeiro ano?
Milton Machel (MM): Eu creio que este ainda não é Governo de Daniel Chapo. É um governo de Guebuza, de Chissano, de Nyusi, de Filipe Paunde e do próprio Daniel Chapo. Portanto, é uma mão cheia e isso é natural, não retira mérito nenhum, tem a ver com a forma como Daniel Francisco Chapo emerge. Repare que ele não era tido nem achado no concerto do partido Frelimo e ele emerge como o “sobrevivente designado” daquele processo [eleições internas] que até hoje ainda não está muito bem explicado. Ele veio há pouco da província, depois de fazer o seu percurso ao serviço do Estado, e é jovem. Então, pelo processo que o leva [à Presidência] é normal que se confronte com todos estes colossos por inerência do facto de ser o incumbente. Concluindo, para mim é um Governo de cinco Presidentes.
D&F: Este Governo de “mão cheia”, como o caracteriza, oferece garantias de responder às aspirações do País?
MM: Quando Daniel Chapo realmente comandar a Comissão Política da Frelimo e o Comité Central, o Governo, não só em termos de pessoas, mas também de pastas. E tem que ser uma reformulação em toda a sua extensão – não falo só do Governo central, é preciso descer até ao nível dos secretários de Estado nas províncias. No meu ponto de vista, quando ele concretizar esse desiderato, vai começar [a Governar]. Mas ele tem bons discursos, é bem articulado, só que é preciso que as intenções e os discursos estejam sincronizados e em consonância com as acções. Portanto, eu penso que ele só tem a fazer melhor tendo em conta o ponto de onde nós partimos – esse afundamento e escangalhamento do Estado que caracterizou os 10 anos anteriores de quem eu prefiro nem mencionar o nome.
“Só há uma figura de oposição no País: Venâncio Mondlane”
D&F: Como é que avalia a oposição política em Moçambique?
MM: Bem, quando morreu Afonso Dhlakama praticamente morreu a oposição, e ficou uma figura a fazer oposição – e oposição de qualidade. Agora digo pela primeira vez para uma audiência maior, mas já dizia aos meus colegas nas Nações Unidas e na sociedade são-tomense: esse político chama-se Venâncio Bila António Mondlane. Para mim, o maior trabalho de qualidade de um pouco em Samora Machel. Ele está a aglutinar tudo o que é oposição em si, o que é mau para a democracia moçambicana, porque vamos ficar com dois pólos – Frelimo e Venâncio Mondlane (Anamola).
D&F: Os demais partidos perderão relevância?
MM: Ele vai enfraquecer tudo o resto em termos de oposição. Mas isso é também consequência do estágio actual, muito por força da forma como o Povo vê as coisas. O povo sempre gostou de um salvador, de um “Deus”. Samora foi proposto como “Deus”, a Frelimo, Guebuza, idem. E depois aparece Venâncio Mondlane, que se propõe como um “anti-Deus”, na perspectiva em que Deus é a Frelimo. O problema do povo é ficar à espera de um “Deus”. Eu tenho uma preocupação muito particular sobre a democracia, sobre a pluralidade, a multiplicidade e a diversidade em Moçambique se ficamos numa situação de ter apenas Frelimo e Venâncio Mondlane (Anamola).
D&F: Depois das últimas eleições, tivemos uma convulsão política e social. Que ilações podem tirar os moçambicanos, em geral, e o Governo, a Frelimo e os demais partidos, em particular?
MM: O País precisa de uma Comissão da Verdade e Reconciliação. Não vou dizer mais nada.
“Passámos de uma economia de dumbanengue para uma de dumbanhonga”
D&F: Vamos virar a página para a economia. Como é que acha que Moçambique pode inverter este momento difícil que está a atravessar?
MM: Olhando para o nosso histórico, conclui-se que passámos de uma economia de dumbanengue para uma de dumbanhonga, uma economia que não é de produtos do dia-a-dia, mas sim de tráfico de influências, representante do Povo, na Assembleia da República, foi realizado por Venâncio Mondlane enquanto deputado. E depois ele percebe toda uma onda e ele deixa-se levar pela aura de Edson da Luz. Quando Azagaia morre e tem aquele velório e marcha de elevação e homenagem, Venâncio Mondlane percebe que tem que pegar o cajado. E pela forma como ele está a tentar liderar a oposição, mesmo que ele diga que se inspira em Afonso Dhlakama, eu penso que se inspira em Martin Luther King Jr. e devia inspirar-se um pouco mais em Malcolm X, sendo que também se inspira um de tenderpreneurs – um termo sul-africano para chamar os campeões dos concursos públicos. Mas temos também pretenderpreneurs, que são aqueles que fingem ser empresários de concursos públicos, de licitações. São os que compram e vendem as nhongas dos 10%. Actuam em sectores como “prestação de serviços”, “imobiliária”. Nós temos que sair desta economia de dumbanhonga e voltar-nos a uma economia produtiva, real.
D&F: Acha que caminhamos para lá?
MM: Essa é a nossa salvação. Precisamos produzir da terra, do mar, da aquacultura, da exploração mineral – tanto industrial como de garimpo legal. Essa economia, de produzir da extracção e transformação, gera mais-valias em termos de cadeias de valor, e não essa economia dos nhonguistas, dos boladeiros, dos que traficam influências e não produzem nada. Essa economia financeira é estratosférica, não chega à terra, e nós temos que voltar à terra. Citando a biografia de Armando Guebuza, escrita por Renato Matusse, temos que voltar a ter paixão pela terra.
D&F: Como é que avalia o estágio da comunicação social em Moçambique?
MM: Capturada. Totalmente capturada.



