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FOI EM GRANDE ENTREVISTA: Chapo encontra o País no menos 1

– “Moçambique precisa de restart”

– “Muitos empreiteiros são empresários em falência”

O presidente da Fundação Tzu Chi em Moçambique, Dino Foi, afirma que o Presidente Daniel Chapo herdou um país em situação ainda mais crítica do que se esperava, considerando que encontrou Moçambique “no menos um” e não no zero, após meses de instabilidade que afectaram profundamente a economia e a confiança dos investidores. Em entrevista ao Dossiers & Factos, o responsável reconhece sinais positivos na liderança do Chefe de Estado, mas admite dúvidas sobre as pessoas que o rodeiam. Pois, não sabe se são as mais adequadas para executar as suas decisões, apontando ainda a corrupção enraizada nas instituições públicas, as dificuldades de relacionamento entre o Estado e a Fundação que dirige, e defendendo um “restart” do País. Dino Foi diz acreditar no potencial de Moçambique, revelando que o seu maior sonho é ver todos os moçambicanos com dignidade e pelo menos três refeições por dia.

Texto: Serôdio Towo

Dossiers & Factos (D&F): Comecemos com a pergunta de praxe: como está a saúde da Fundação Tzu Chi?  

Dino Foi (DF): A Fundação está bem, mas poderíamos estar melhor. Muitas vezes as pessoas não percebem a nossa maneira de estar. É que a Fundação, diferentemente das outras grandes fundações, não tem necessariamente um cheque gordo. Ela é alimentada por doações de membros espalhados pelo mundo, que até ao momento são cerca de 10 milhões. Em função disso, guarda-se o dinheiro e vamos trabalhando em diferentes países. Neste momento, a Fundação está em 68 países, mas já atingiu cerca de 112 países em termos de suporte.

D&F: Em Moçambique, qual é a abrangência?

DF: Em Moçambique, a abrangência é incipiente, se a gente olhar para a grandeza do País. Mas nós começamos a trabalhar em Moçambique em 2012 e temos quatro pilares, que são a solidariedade ou caridade, a saúde, a educação e a cultura humanística. A solidariedade é muito mais fácil de fazer, porque não exige muita cabeça. Muitas vezes, até exige apenas pernas e braços. Então, sempre trabalhávamos com as populações aqui nos bairros Malhazine, Mahotas, Mahubo e alguns outros bairros também na zona da Manhiça, na perspectiva de trazer aquilo que nós chamamos de amor. A Fundação acredita num princípio básico de que o amor é incondicional. Então, começamos a criar um movimento de interajuda dentro dos bairros, o vizinho ajuda o vizinho, aquele que recebeu 10 quilos de arroz da Fundação podia partilhar com o vizinho. Íamos ver as populações que estavam doentes. Há muita gente acamada que nem consegue ir a um posto médico; então, costumamos tirar essa pessoa e levá-la ao posto médico, fazemos o acompanhamento. Depois veio o IDAI, no dia 14 de Março de 2019, que veio testar tudo aquilo que eram os nossos princípios e a estrutura, porque nós pensámos que estávamos numa zona de conforto e não tínhamos condições para avançar para uma província que não fosse Maputo. Mas, quando chegou o IDAI, fomos testados ao limite, tivemos que movimentar voluntários e mandamos comida para lá. Até o meu telefone satélite mandei para Beira para ver se a directora-geral do INGD se comunicava com o mundo, já que todas as comunicações estavam arrebentadas. De lá para cá, desenhamos um projecto de 23 escolas e 3 mil casas. Neste momento, temos 17 escolas completas, incluindo as maiores escolas secundárias e primárias do País, entregues ao Governo na abertura do ano lectivo 2026. Neste momento, estamos a fazer as últimas: Escola Primária de Guara-Guara, Escola Secundária de GuaraGuara e o Instituto de Saúde de Nhamatanda. Ainda este ano iremos construir a Escola 25 de Setembro, em Dondo. Chegados a Fevereiro de 2027, teremos feito 23 escolas e 3.182 casas.

“Eu não acredito em conteúdo local”

D&F: Com a experiência que foram adquirindo na área da educação, o que é que acha que trava o desenvolvimento do País no que respeita à construção de infra-estruturas escolares?

DF: Eu penso que deve haver políticas claras à volta da construção destas infra-estruturas. Mas, mais do que isso, é preciso ver como é feito o pagamento. Nós [Tzu Chi] temos um sistema muito simples: localizamos um projectista, que muitas vezes fica como o fiscal, e uma empresa de construção. Então, no fim do dia, nós só lidamos com estas duas empresas em cada uma das nossas construções. Isso ajuda porque só pagamos a essas duas empresas. Aquilo que for feito como subcontratação, já não implica a fundação. Segunda coisa: nós temos um modelo de escola. Todas as escolas por nós intervencionadas, excluindo a Universidade Católica, seguem um padrão – existem salas que seguem a largura e o comprimento, existe o bloco administrativo. E até temos uma escola onde construímos um bloco de residência para professores. A terceira coisa é a falta de seriedade. Isso começa com os empreiteiros. Os primeiros empreiteiros que a fundação levou, que são 100% moçambicanos, levaram a que fôssemos a Tribunal. Neste momento, as construções da Fundação estão a ser entregues a empresas chinesas. Aqui as pessoas podem trazer o nacionalismo, o patriotismo, o xenofobismo ou uma outra coisa qualquer. Há gente que fala muito do conteúdo local, mas não acredito no conteúdo local. É que, muitas vezes, as pessoas pensam que o conteúdo local é necessariamente pegar alguém porque é moçambicano, não Se este moçambicano tem capacidade de fazer o trabalho, aí, sim, nós podemos chamar o conteúdo local; mas agora, trazer alguém porque a única coisa que traz à mesa é ser moçambicano? Eu acho que isto é errado.

“Muitos dos que se dizem empreiteiros são empresários a caminho da falência”

 D&F: Mas o que aconteceu, efectivamente?  

DF: Nós tínhamos um programa com o Governo, no que concerne a 3.000 casas e as 23 escolas. Mas, para evitar idas ao Tribunal cada vez que temos uma obra, avançamos para empresas sérias e tudo está a ser acabado em tempo útil e dentro do orçamento. Aqui há uma linha de pessoas que se chamam de empreiteiros, mas não são necessariamente empreiteiros. Infelizmente, muitos dos “empreiteiros” são empresários que estão a ir à falência. Então, a última actividade que querem fazer é a construção, porque na construção sempre existem aqueles 20% ou 40% que o Estado dá de adiamento depois de eles ganharem o concurso via UGEA. O que é certo é que não constroem, usam os 40% para suas fantasias. No final do dia, ou a escola não é terminada ou é terminada sem qualidade. 

D&F: Qual é o orçamento que a Fundação tem para Moçambique?

DF: Para este projecto específico (escolas e casas), estamos a usar 108 milhões de dólares. No princípio, o projecto tinha sido avaliado em 70 milhões de dólares, mas, quando veio o IDAI, com os choques internacionais e até locais, o valor do projecto subiu muito. Eu até tenho dito que, se isto fosse uma empresa, possivelmente já teria pedido demissão, porque parece que houve erro de planificação, mas não. Os custos subiram extraordinariamente e a Fundação decidiu que, em vez de dizer ao Governo que ia reduzir as escolas ou as casas, vai pedir o amor dos seus voluntários, e eles doaram outra vez. Graças a isso, vamos terminar este projecto exactamente como o desenhamos.

“Nossa relação com o Governo não é fácil”

D&F: Como está a vossa relação com o Governo/ Estado?

DF: Não é fácil. Nós temos uma relação com o Estado via Grepoc (Gabinete de Recuperação PósCiclones), mas, no final do dia, o Grepoc é que está a gerir a parte da reconstrução pós-cheias. Do outro lado, temos a parte do Ministério da Educação, porque nós trabalhamos desde a Presidência até ao chefe de Posto. O que muitas vezes temos visto é que as pessoas só esperam de ou por nós, parece não haver uma responsabilidade conjunta. Dou-lhe o exemplo da Escola Secundária de Mafambisse. Construímos a escola e entregamos as tintas que íamos usar. Depois da pintura, duas semanas antes da inauguração, recebemos a instrução de que a escola tinha de ter uma tinta diferente. Mas o Ministério da Educação, via Direcção Nacional de Infra-estruturas Escolares e a Direcção Provincial da Educação, sempre esteve no terreno a acompanhar. Sinceramente falando, eu disse-lhes então pintem as cores que vocês estão a propor, porque nós já pintamos. Outro exemplo: quando começamos a construir a escola primária dos Esturros, o processo começou no Ministério da Educação, mas quando estávamos no meio, o Ministério dizia que a escola já não seria primária, seria básica. Fomos avançando e, numa outra fase, vem alguém do Ministério da Educação e diz que não, uma escola básica precisa de três laboratórios, mas nós não sabemos disso. Eles deviam ter nos guiado para que implementássemos estes três laboratórios. Agora temos uma situação em que estamos a entregar 46 salas e eu estou a dizer: “já que há três laboratórios, matem três salas e façam laboratórios”. No final do dia, parece que a responsabilidade só está deste lado. É importante que as pessoas façam isso como se fosse um casamento, em que de um lado tem um marido, do outro lado tem uma esposa, mas todos têm responsabilidades sobre a casa.

D&F: Entende-se que esse tipo de atitude é generalizado ou é de alguns indivíduos que dirigem as instituições?

DF: Eu penso que há um problema daquilo que eu chamaria de cultura organizacional, porque a pessoa que nos disse isso, quando nós inauguramos a Escola Secundária de Mafambisse, não é a mesma que disse isso agora que estamos para inaugurar a escola básica dos Turros. Então, quando se põe isso na mesa, a gente conclui que há um problema no funcionalismo público. A atitude dos funcionários públicos é de muito choque com as pessoas que interagem com eles. Infelizmente, não é só na educação, é em quase tudo em que nós trabalhamos. Vou-lhe explicar uma coisa: quando nós começamos a construção da Escola Primária Moçambique Industrial – que originalmente era uma escola que estava dentro de uma fábrica, e que acabou destruída pelo IDAI – o Governo municipal deu-nos um espaço. Nós recebemos uma nota de que estávamos a construir em cima de um terreno onde se ia implantar uma fábrica, e até chegamos ao tribunal. A empresa queria 26 milhões de meticais para que o processo morresse. Eu disse “se eu tivesse 26 milhões de meticais, isso me ia ajudar a construir mais algumas salas de aulas”. Definitivamente, não ia pagar ninguém. No final do dia, embora nós não fôssemos necessariamente os réus, só nós é que estávamos a interagir com o Tribunal, nunca houve interacção com a outra parte. Então, é mais uma questão de atitude, não é educação. A educação está lá – essa gente até fez mestrados – mas a atitude de alguns dos nossos irmãos, principalmente aqueles que estão na Função Pública, é simplesmente de bradar céus.

“Moçambique precisa fazer restart”

D&F: Dino Foi é moçambicano, reside em Moçambique e trabalha para o desenvolvimento da Nação. Como é que vê o seu País? 

DF: Nós estamos num País muito jovem, de tal sorte que eu sou mais velho do que o próprio País. Moçambique só foi Moçambique desde 1975, e não há 500 anos como alguns pensam. Como moçambicano, tenho as minhas aspirações, que giram à volta do País, do meu povo. Queremos que todas as pessoas tenham um bem-estar, embora alguns possam dizer que isso é utopia. Gostávamos que Moçambique tivesse um grau de escolaridade alto, que a pobreza fosse puxada para trás, que a saúde melhorasse. Obviamente, pode-se invocar a guerra de desestabilização e outras coisas, mas é preciso ver que Moçambique precisa de fazer um restart, e eu penso que esse restart já está a ser feito. Temos um novo Presidente, Jovem, e acredito que vai levar esse País a bom porto. Certo é que fazer as coisas como elas sempre foram feitas não nos vai levar a lado nenhum.

“Não sei se os que estão ao redor de Chapo estão certos”

D&F: O que o leva a crer que o Presidente Chapo vai mudar o rumo?

DF: Eu tenho alguma interacção com o Presidente, por causa desta coisa de reconstrução, e já sentamos em mesas como estas, até porque tenho uma outra face como empresário. Eu vejo o amor, a interacção, aquilo que possivelmente é o sonho deste Presidente, e isto leva-me a acreditar que podemos ir para um bom porto. A minha questão aqui não é Chapo como Presidente. Para mim, Chapo é certo, mas não sei se os que estão ao redor dele estão certos. Possivelmente, esta será a grande batalha do Presidente, porque as coisas não acontecem só com o PR. Ele toma uma decisão e tem gente que deve implementar, e estes implementadores, que vão até ao chefe do Posto, possivelmente não estão a entender a mensagem, e é preciso criar um paralelismo, é que os da Função Pública não foram mudados, são os mesmos que vêm connosco há 50 anos. O PR pode mudar o Governo quando quiser, mas é naquele chefe dos Registos, de Trânsito, etc, que nos devemos concentrar. Também nos ministros temos de estar concentrados. Com Chapo, eu estou muito satisfeito, mas o Governo não sei se é exactamente o que se quer. Eu costumo dizer que, quando você é um líder, toma decisões, e eu nunca posso estar com alguém com quem não estou à vontade.

D&F: Eu vou insistir na pergunta. Quando diz não saber se as pessoas que estão próximas do Presidente são as certas, a quem se refere?

DF: Estou a falar daquela click toda. Do Conselho de Ministros, governadores e secretários de Estado. É deles que falo porque são esses que fazem andar esse País ou não andar.

“Chapo encontrou o País no – 1”

D&F: E o País está a andar?

DF: O País está a andar. Infelizmente, nós temos uma situação que é preciso reconhecer. Eu, como pessoa envolvida em acção humanitária, tenho de notar que temos cheias cíclicas, ciclones e outros desastres. Eu sempre pensei que o Presidente Chapo ia encontrar o País no zero, mas não, o Presidente encontrou o País no menos um, e de menos um para o zero é um caminho muito longo. É preciso olhar para aqueles quatro meses em que o País ardeu. As pessoas que não venham aqui “se mentir” por causa das suas cores partidárias. Os quatro meses rebentaram a economia; e aqui a economia é aquela real, é a economia psicológica. O que é a economia psicológica? É uma coisa muito simples. O que é que você está a pensar da economia? Eu posso lhe garantir que, de cada vez que o presidente Trump sai da linha, a Bolsa de Valor de Nova Iorque logo mostra o caminho, por quê? Porque se o comentário não tiver sido bom, psicologicamente, as pessoas que detêm acções começam a vender. Então, aqui também é a mesma coisa: quando você tem uma Shoprite a arder em Bilene-Macia, tem as coisas a acontecerem aqui mesmo, perto da Mafalala, ninguém quer vir para Moçambique para investir. Mas, mais do que isso, aqueles que já estavam aqui estão a ir embora. Tivemos, ou temos ainda, a questão de raptos, que baixaram muito. Mesmo assim, aqueles que deviam estar a fazer as coisas para o País saíram, as fábricas não estavam a funcionar. Eu tenho um amigo turco que tinha uma fábrica de processamento de farinha de milho na Machava. Queimaram aquela fábrica completamente. Então, não temos exportações neste momento, pelo que há uma necessidade de estancar o clima de fricção existente no País. 

D&F: E ainda temos a questão de Cabo Delgado…

 DF: Pois é, não podemos esconder que Cabo Delegado não nos ajuda, embora haja terrorismo apenas em alguns distritos. É que o nível de violência que aquela gente mostra dá a percepção, para quem vem de fora, de que é todo o País que está afectado. Recentemente, alguém tentou fazer um booking numa dessas plataformas de internet para Namaacha. Não só nenhuma instância apareceu, como também veio um aviso dizendo que “tem que contactar o seu Governo porque esta zona é de perigo”. Namaacha! Então, hoje em dia, principalmente com as fake news, muitas vezes o esforço que fazemos para tentar vender o País, no bom sentido do termo, não chega lá, ou quando chega lá as pessoas dizem “Moçambique não”. Então, há uma necessidade de criarmos uma retórica muito boa e, felizmente, já começou com a última Conferência Internacional do Turismo, que vai ser uma conferência anual daqui para frente. Isso vai nos ajudar a atrair não só turistas, mas também possíveis investidores.    

D&F: Como é que superamos estes quatro meses em que o País esteve a arder?  

DF: Não existe uma fórmula mágica. Infelizmente, nos últimos anos, daquilo que vejo como cidadão que está na estrada todos os dias, é que todo mundo hoje em dia é político. Há uma desconfiança muito grande entre os moçambicanos, você não faz uma coisa sem o outro pensar que há uma intenção por detrás disso. Serôdio não tem noção do que foi começar essas construções, do que aconteceu quando a gente começou a dar comida às pessoas. Quando fomos à Ilha de Moçambique, na sequência do ciclone Gombe, tivemos problemas. Chegámos, apresentámo-nos ao administrador e ao presidente do município, que eram de partidos diferentes. Na Ilha, éramos vistos como do partido que está no poder, mas, felizmente, ficou claro que éramos apartidários. Mas logo a seguir veio outro problema, quiseram saber se não tínhamos produtos que não iam “abater” o halal. Felizmente, a Fundação é vegetariana, então não havia nenhum animal ali, não havia como ter uma coisa que não era halal. A partir dali, fomos abraçados por aquelas 2.700 famílias, e neste momento nós temos 306 voluntários dentro da Ilha de Moçambique. Então, muitas vezes, tem mais a ver com como a gente faz o engajamento com as pessoas, e eu vejo que Chapo está muito interessado no Diálogo Nacional, o que já é um ponto de partida. Mas o que falta mesmo é amor ao próximo. Hoje as pessoas olham para os partidos; não, não é sobre o partido, é sobre Moçambique, senhores, não façam confusão.  

D&F: Depois do País ter ardido por quatro meses, o que acha que aconteceria se tivéssemos eleições no próximo mês? As feridas estão saradas? 

DF: Dizer que as feridas estão saradas seria uma utopia, porque, muitas vezes, quando temos problemas em casa, discutimos em casa, a roupa suja não se lava na rua. Então, o problema que existiu aqui foi de um partido e outros partidos. Mas, quando se salta para fora, estamos a abrir a porta ao feiticeiro. Para dizer que a situação política de Moçambique tem que ser resolvida por moçambicanos, e aqui é Moçambique. Então, se acontecesse a eleição amanhã, eu penso que algumas pessoas iam concorrer e teríamos resultados. Agora, desde que temos eleições multipartidárias, os resultados não são aceites. Temos que aplicar uma fórmula em que quem ganhou diz que ganhou, e quem perdeu diz que perdeu. O que tem acontecido é que, antes das eleições ou dos votos serem contados, já temos um vencedor, e, logo a seguir, o País arde. Essa última vez foi pior, nunca tinha visto uma coisa como aquela. 

D&F: Noutras vezes tínhamos Afonso Dhlakama, que era um general e tinha uma força armada. Mas agora tivemos uma oposição totalmente civil, atendendo que a Renamo já estava desarmada. O que fez com que a situação fosse mais grave?  

DF: As redes sociais. Elas estão a ser muito mal usadas hoje, e foi-se criando uma situação em que, basta ter internet, você pode dizer o que quiser. Felizmente ou infelizmente, estou um pouco exposto, e há coisas que vejo escritas sobre mim, e eu digo: “olha, se tivesse falado comigo, eu ia dizer exactamente o que é isto”. Então, as redes sociais contribuíram grandemente.

“Quem não está pronto, que seja posto de lado” “Se pudéssemos, ficaríamos sem polícia por três meses”

D&F: Vamos voltar a uma das considerações que fez acima. Quando fala de restart, o que quer dizer? 

DF: O restart quer dizer, primeiro, olhar para as coisas de uma maneira holística. Como? Onde é que nós estamos? E para onde estamos a ir? E sobre isso, não haja medidas paliativas, aqueles que não estão prontos para conduzir este Moçambique a bom porto, que sejam postos de lado, porque há muitos bons moçambicanos que querem ajudar este País. Então, quando nós temos problemas como a corrupção, que também já foi amplamente falada desde os tempos em que eu era menino, mas depois as pessoas não vêem o que acontece, as próprias instituições onde a corrupção deve ser combatida é onde a corrupção está “sentada”. Eu tenho um processo no tribunal. “Ah, mas Dino, tu não queres negociar?” Eu disse, olha, eu não negocio coisas, eu deixo o processo avançar até alguém dizer que isto vocês perderam ou ganharam. A corrupção neste País está com o jurista ou o advogado, está com o juiz, está com o procurador. E eles estão lá a trabalhar. Eu vi o último acórdão do Conselho Superior de Magistratura sobre uma série de coisas, e as decisões são simplesmente patéticas. Não sabemos exactamente o que que aconteceu na Beira, em Inhambane e em alguns outros sítios, porque as pessoas protegem-se entre elas. E essas pessoas não estão preparadas para este País – este não é o País que queremos. Eu tenho voluntários fora do País, e aquela gente, quando chega ao País, é simplesmente depenada. Você chega com um visto e depois começa a lutar com a migração. Na altura de sair, quando você tem olhos puxados, eles muitas vezes pensam que são chineses ou indianos, você é chamado lá para trás, no aeroporto da cidade de Maputo, para eles dizerem que tem alguma coisa aí na tua pasta e deve abrir. Revistam o estrangeiro até tirar a carteira e o dinheiro que está lá dentro. Eu tenho um parceiro que veio para aqui, quando passou a fronteira de Maputo, ligou e disse Dino “I am not coming your country anymore”. Isto acontece diariamente. E tu pensas que eu não digo? Eu digo, eu escrevo.

Mas aquelas pessoas estão lá. Quando é que você ouviu que houve uma acção de prisão de polícia trânsito? Quando é que ouviu que houve uma acção de prisão de pessoas das Alfândegas? Quando é que você ouviu falar que houve uma acção de prisão de agentes da Migração? Então, nós não podemos pensar no restart se não atacarmos essas coisas básicas. Então, o restart é este. Se nós pudéssemos, ficaríamos sem polícia por três meses, íamos pôr militares, depois esperar a nova Lei para começarmos.

D&F: Podia ser solução?

DF: Não é uma solução, é a única coisa que me passa pela cabeça, porque não estou a ver uma outra coisa. Estes que entraram agora – eu acho que algumas pessoas foram presas em Cabo Delgado, porque já havia corrupção, mesmo antes de entrar – então, uma coisa tem que ser atacada de cima para baixo.

D&F: Dino, sente que há actos de corrupção nos distritos onde vocês constroem as vossas infraestruturas?  

DF: Eu já tive dois administradores a pedirem casa, um presidente do município a pedir casa. Já tive situações de listas estarem sujas, listas duplas. Nós, neste momento, não estamos a conseguir começar a distribuir para 851 famílias que estão em Guara-Guara, porque em algum momento fomos descobrir que há nomes repetidos. O que é isto?

“Já tive administradores a me pedirem casas”

D&F: E quem produz as listas?

DF: As listas são produzidas pelo INGD e as autoridades locais. Nós estamos a debater-nos com uma situação muito chata. Das 1.227 casas que ficaram, há 40 casas que não têm dono, porque as pessoas venderam os terrenos, os terrenos que o Estado doou para a Fundação construir. Como é que se vende o terreno? Nós sabemos que o terreno não se vende, o que nós temos dito é que se vende a propriedade, talvez você constrói um muro e depois vende, mas essa venda tem que ir para a administração, para se ter um DUAT. Nós temos gente que tem DUAT sobre o sítio onde nós devíamos construir. Então, temos que fechar o nosso compromisso com o Estado, das 3.000 casas. Estamos, neste momento, a falar com as autoridades locais, com o Gabinete da Primeira-Dama, para dizermos “olha, nós, como já fizemos aquela primeira triagem, que já vem desde 2019, dessas 2.067 famílias, e já entregamos 840 casas. Neste momento, há umas casas que não batem porque estes venderam os terrenos e, definitivamente, nós não vamos construir uma casa para eles. Então, vocês deverão ir ao terreno outra vez para fazer um levantamento de 40 famílias que estão mesmo a precisar, que é para nós dermos as casas. As casas estão prontas, se essa lista aparecer amanhã, a Fundação entrega amanhã”.

D&F: E quando denunciam?

DF: É assim, muitas vezes alguma coisa acontece, mas, como eu dizia, essas pessoas não têm que reportar a mim. Mas nós já fizemos a nossa parte. Agora, se você leva um ladrão para a esquadra e, dois dias depois, o juiz simplesmente solta, o que é que você vai fazer? O que nós queremos é só fazer a nossa parte, mas, infelizmente, não temos força para influenciar o resultado.

“Gostava que todos tivessem três refeições”

D&F: Esperava alguma pergunta que não coloquei?  

 DF: Sim, esperava ouvir “por que Dino está a fazer isso?” Eu venho de uma família muito pobre. As pessoas gostam de chamar a minha família de humilde, mas de humilde não tem nada. São dois analfabetos de sítio como Inhassunge. Estudei até os meus oito anos indo à escola descalço. Aos meus nove anos, vi electricidade pela primeira vez, vi água de corrente pela primeira vez. Aos 12 anos vim a Maputo. Lutei não para singrar, mas para entrar, e sinceramente falando, na altura em que eu cheguei aqui, havia aquilo que se chamava de classes sociais. Nunca fui necessariamente um aluno bom, em termos de inteligência, mas sempre me safei. E nessa de se safar, ganhei com 22 anos um salário superior a tudo o que já ganhei. Agora, como adulto, tenho dois doutoramentos e três mestrados, mas nunca ganhei o salário que ganhei em 1996. Isso deu-me um espaço para comprar a minha primeira casa, aquela coisa de jovens, casa própria em 1999. Em 2001, eu decido estudar no Zimbabwe, onde faço a minha licenciatura. Volto em 2005 e consigo um mestrado em Taiwan. Eu vou a Taiwan não porque eles têm olhos verdes, mas porque vinha lendo sobre o Taiwan desde a altura em que estava a fazer a 11ª. Lembro-me muito bem da luta entre Kai-shek e Mao Zedong. Mas eu descobri uma coisa no Taiwan – que eles têm algo diferente. Então, fui ver que a força daquela ilha está no seu povo. Aquele povo acredita na sua terra, e eu bebi muito disso. Nós temos a África do Sul, mas eu nunca me vejo a mudar para a África do Sul. Nós temos os EUA, mas nunca me vejo a mudar para os EUA. Eu me vejo em Moçambique, onde ainda é possível ter uma educação boa, saúde boa, saneamento do meio bom, gente de bom coração. Então, eu quero ser player nisso, na minha posição. Acredito que nem todos precisamos ser políticos, ministros, etc. O País é feito de 35 milhões de pessoas e eu quero contribuir à minha maneira. É que eu venho de uma base pobre e hoje tenho três refeições. Então, gostava que todos os moçambicanos tivessem três refeições como eu.

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