A decisão da Confederação Africana de Futebol (CAF) de passar a organizar o Campeonato Africana de Nações (CAN) de quatro em quatro anos, a partir de 2028, está a gerar forte contestação no seio do futebol africano, com treinadores, ex-jogadores e dirigentes a acusarem a entidade de submeter o calendário continental aos interesses europeus.
Um dos críticos mais contundentes é o seleccionador do Egipto, Hossam Hassan, que rejeitou frontalmente a mudança, considerando-a um atentado à identidade do futebol africano. Para o técnico, a realização bienal da AFCON é um pilar essencial para o desenvolvimento do futebol no continente e não deve ser sacrificada para acomodar clubes e campeonatos europeus.
“Sou um egípcio que tem orgulho de ser africano e recuso-me a permitir que as nossas competições sejam ditadas por interesses estrangeiros”, afirmou Hossam Hassan, sublinhando que a nova decisão “não serve ao futebol africano de forma alguma”. Na sua leitura, trata-se de uma reforma pensada “exclusivamente para a Europa, para não atrapalhar os seus campeonatos”, questionando por que razão África deveria “sacrificar a sua paixão e o seu progresso pelo conforto de outros”.
O seleccionador egípcio foi ainda mais longe, defendendo que o continente merece respeito e gestão soberana. “África é um grande continente futebolístico. Devemos proteger o nosso torneio, porque África merece muito mais do que apenas migalhas do calendário global”, declarou.
No mesmo tom crítico posicionou-se o seleccionador do Mali, Tom Saintfiet, que responsabilizou directamente a FIFA pela mudança. “Desde 1957 que a África organiza a Copa a cada dois anos, agora dizem que deve ser a cada quatro. Não é justo. A África deve ser respeitada”, afirmou o técnico belga, ecoando um sentimento que se tem espalhado por vários quadrantes do futebol continental.
Às vozes críticas junta-se também o lendário Mohamed Aboutrika, antigo internacional egípcio e uma das figuras mais emblemáticas do futebol africano contemporâneo. Recorrendo às redes sociais, Aboutrika manifestou frustração com o rumo seguido pela CAF, argumentando que as mudanças minam a autonomia e a identidade do futebol africano.
“A CAF está ao serviço do futebol europeu”, escreveu na sua página oficial no Facebook, sugerindo que a entidade perdeu de vista os verdadeiros interesses de África. “Isto acontece quando não se reconhece o próprio valor e estatuto; quem não tem algo não pode dar”, acrescentou.
Motsepe “decapita” CHAN e cria Liga das Nações
A polémica não se limita à alteração da periodicidade do CAN. A CAF confirmou igualmente a extinção do CHAN (CAN Interno), competição reservada a jogadores que actuam nos campeonatos domésticos africanos, substituindo-o por uma Liga das Nações Africanas anual, inspirada no modelo da Liga das Nações da UEFA. Esta alteração solidifica a percepção de que a actual direcção da CAF está mais preocupada em assemelhar-se aos europeus.
Perante as críticas, o presidente da CAF, Patrice Motsepe, saiu em defesa das decisões, argumentando que o congestionamento do calendário internacional tornou cada vez mais difícil a organização bem-sucedida das competições africanas. Segundo Motsepe, as reformas inserem-se numa estratégia mais ampla de alinhamento do futebol africano com a agenda global, visando também reforçar a sua atractividade comercial.
O sul-africano reconheceu a importância histórica da CAF bienal, mas sustentou que a sua realização de dois em dois anos se tornou um desafio crescente. Defendeu ainda que a futura Liga das Nações Africanas oferecerá maiores incentivos financeiros e um nível competitivo mais elevado.




