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ATÉ NA DESGRAÇA HÁ OPORTUNIDADES: Inundações em Maputo produzem pescadores

Paus de pesca improvisados, anzóis moldados à mão com arame e iscas arrancadas da terra transformaram crianças e jovens em pescadores improvisados nas zonas mais vulneráveis às inundações urbanas. A actividade, que em muitos casos deixa de ser lazer para se tornar necessidade, ganhou expressão em bairros como Boquisso, Machava Socimol 15, Nkobe e Matola Rio, onde a pesca surgiu como solução imediata para garantir alimento às famílias ou, nalgumas situações, assegurar alguns meticais para despesas básicas.

Texto e Imagem: Milton Zunguze e Arton Macie

No bairro de Boquisso, no município da Matola, a água deixou de ser apenas sinónimo de destruição e tornou-se, paradoxalmente, fonte de sustento. Onde antes havia ruas de terra batida, quintais familiares e caminhos improvisados, estendem-se agora poças profundas, lagoas temporárias e bacias de água estagnada. As cheias deixaram um rasto visível de destruição – casas alagadas, famílias desalojadas, infra-estruturas comprometidas e mobilidade urbana severamente afectada -, mas, no meio da adversidade, emergiram dinâmicas inesperadas de adaptação. A água que expulsou moradores e engoliu bens criou também espaços improvisados de sobrevivência.

Crianças à beira da lagoa

Logo nas primeiras horas da manhã, por volta das 7h, nas margens de uma lagoa formada a cerca de 1,5 quilómetros de casa, Léron Cossa regressa da pesca acompanhado do irmão mais novo, aparentando terem entre 10 e 12 anos. Com dois baldinhos improvisados, uma rede feita a partir de mosquiteiro usado e anzóis rudimentares, trazem seis peixes pequenos, resultado de horas de espera à beira da água.“Chegámos cedo, mas hoje só conseguimos isto”, conta Léron. “Temos medo de entrar naquela água grande. Lá no meio há peixes grandes, tilápias, mas dizem que há poços.”

Segundo relatam, alguns adultos e jovens mais velhos aventuram-se até ao centro da lagoa utilizando geleiras e congeladores avariados como bóias improvisadas. Eles, porém, não arriscam. “O risco é muito alto. Nós pescamos para comer em casa. Pelo menos dá para fazer um pouco de caril”, explica. O peixe, dizem, é abundante; o problema é a isca. “As minhocas já estão difíceis.

Mais gente, mais redes, a mesma esperança

Ao longo da manhã, a lagoa ganha mais movimento. Entre as 11h e as 12h, chegam novos grupos, sobretudo jovens entre os 10 e os 16 anos, que afirmam conseguir pescar, em dias favoráveis, entre 30 e 40 peixes. A quantidade varia conforme a hora e, como dizem, a “mão divina”.“Aqui não tem tanto peixe como lá no meio. Lá entra-se com rede”, explicam, apontando para o centro da lagoa.

O “Grande Pescador” de Quelimane

Entre as figuras mais conhecidas da zona está Rosário Dias, conhecido como “Grande Pescador”. Natural de Quelimane, veio para a capital em busca de uma vida melhor. Passa os dias junto à lagoa, linha na mão e olhar atento à superfície da água.“Aqui tem muito peixe, mas muito mesmo. Esta é a única actividade que eu tenho”, afirma. Além de pescar para consumo próprio, vende parte do pescado: “Os pequenos são sete por 100 meticais. Os grandes, cinco por 100. Estão frescos, ainda vivos quando chegam a casa.”

Riscos escondidos debaixo de água

A actividade não está isenta de perigos. A escassez de minhocas obriga à improvisação de iscas, como a xima, pouco eficaz por se desfazer na água. O maior risco, contudo, são as sanguessugas.“Quando entram no corpo, corre-se risco de morrer”, alerta Rosário. Para se protegerem, os pescadores amarram as barras das calças, mas os acidentes acontecem. “Ontem entrou uma. O meu avô ensinou: tem de dar palmadas à frente dela e sai sozinha.”

Machava Socimol 15 e Nkobe: pesca urbana ganha terreno

Fenómeno semelhante repete-se em zonas como Machava Socimol 15 e o bairro Nkobe. Ali, as águas acumuladas deram origem a uma prática até então inexistente: a pesca urbana em poças resultantes das inundações. Rafael Sambo, um dos chamados “formados pelas águas”, conta que, apesar dos danos profundos causados pelas cheias, o fenómeno abriu espaço para novas formas de sobrevivência.“Os quintais, ruas e terrenos abandonados encheram-se de água. Nessas bacias começou a aparecer muito peixe preto”, relata.

As poças transformaram-se em pontos de encontro de verdadeiros “artistas da água”: crianças movidas pela curiosidade, jovens em busca de rendimento diário e adultos a tentar reforçar o orçamento familiar convergem no mesmo espaço. O peixe é vendido conforme o tamanho – o maior por 150 meticais, o menor por 100. A técnica é simples e artesanal: vara improvisada, linha e sapo como isca.

Quando a noite facilita a captura

A pesca intensifica-se ao final da tarde e durante a noite, quando a quietude da água facilita a captura. Nessas horas, as poças ganham vida própria, num ritual colectivo marcado por silêncios atentos, movimentos calculados e a expectativa constante da fisgada.

Matola Rio: o Umbeluzi traz novos peixes

Na Matola Rio, a situação assume outra dimensão. O transbordo do rio Umbeluzi, provocado por descargas que elevaram significativamente o nível das águas, trouxe consigo novas espécies de peixe. Tilápias do próprio Umbeluzi e espécies de água doce de outras regiões foram arrastadas pela corrente, aumentando a diversidade do pescado local.

Diogo Muianga, pescador no bairro de Salinas, explica que esta mistura inesperada alterou a prática da pesca e as possibilidades de venda. “Alguns peixes não aguentam muito por causa da água mais salgada, mas mesmo assim ajudam”, afirma. Para comunidades habituadas à instabilidade, cada peixe representa mais do que alimento: é resistência.

Época chuvosa continua a castigar o País

A época chuvosa e ciclónica 2025/2026 continua a provocar elevados danos humanos e materiais em Moçambique. Dados cumulativos do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres indicam que, só entre 9 e 28 de Janeiro de 2026, as cheias e inundações afectaram 699.924 pessoas, causando 15 óbitos, 45 feridos e 10 desaparecidos. Nesse período, 4.794 pessoas foram resgatadas e mais de 100 centros de acomodação activados em várias províncias.

Entre 1 de Outubro de 2025 e 28 de Janeiro de 2026, 820.802 pessoas — correspondentes a 189.962 famílias — foram afectadas por fenómenos extremos em todo o país, com impactos severos na habitação, educação, saúde, agricultura e economia rural.

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