Num contexto em que Moçambique continua fortemente dependente da importação de bens tecnológicos — desde equipamentos sofisticados até produtos básicos — começam a surgir sinais de mudança. Nos últimos tempos, torna-se cada vez mais frequente o aparecimento de iniciativas de jovens empreendedores locais que dão passos concretos na criação de soluções tecnológicas próprias, desafiando o paradigma de um país meramente consumidor.
Texto: Milton Zunguze
Um dos exemplos é a empresa Menor Electronics, liderada por António Mondlane, que evoluiu da produção de brinquedos para o desenvolvimento de computadores e, mais recentemente, de empilhadeiras com características diferenciadas no mercado.
Em declarações exclusivas ao Dossiers & Factos, o antigo presidente do Conselho de Administração da Empresa Nacional de Parques de Ciência e Tecnologia (ENPCT), Julião Cumbane, considera este percurso um caso paradigmático, que deve servir de alerta e inspiração.
“Estamos perante um jovem que começou com brinquedos, passou para computadores e agora está a produzir empilhadeiras. Isto mostra que temos talento e capacidade, mas precisamos de mudar a forma como tratamos os nossos inovadores”, afirmou.
Cumbane recorda que, durante o seu mandato, chegou a convidar o empreendedor a instalar-se no Parque de Ciência e Tecnologia de Maluana, na província de Maputo, com o objectivo de dar maior visibilidade ao seu trabalho e facilitar a expansão do negócio.
“Os parques foram criados exactamente para isso: apoiar iniciativas de base tecnológica, dar-lhes espaço, visibilidade e condições para crescerem”, explicou.
Apesar destes avanços, persistem obstáculos estruturais, sendo um dos principais a ausência de políticas eficazes de protecção da produção nacional. Para Cumbane, é essencial rever o quadro legal, sobretudo no que diz respeito à concorrência, de modo a criar um ambiente mais favorável aos produtores locais.
“É preciso que esses produtos saiam das garagens para o mercado. Isso exige investimento do Estado no desenvolvimento desses empreendimentos”, defendeu, acrescentando a necessidade de redesenhar políticas públicas capazes de impulsionar estas iniciativas.
Referindo-se às empilhadeiras desenvolvidas pela Menor Electronics, sublinhou o carácter inovador do projecto. “A ideia já existe há muito tempo, mas esta versão é única nas suas características. É uma inovação com espírito de invenção”, disse, defendendo que Moçambique pode não apenas adaptar tecnologias, mas também criar soluções originais.
A necessidade de protecção económica, acrescenta, não é um caso isolado. “A disputa entre economias globais mostra que cada país protege o que é seu. Nós também precisamos fazer isso, se quisermos desenvolver”, afirmou.
“Não precisamos importar tudo. Até agulhas e alfinetes vêm de fora. Isso não faz sentido quando temos capacidade interna. Precisamos de leis que protejam o que é nosso, incentivem o consumo de produtos nacionais e permitam a estas empresas crescerem”, concluiu.
Menor Electronics já vendeu mais de 2 mil unidades
Por sua vez, o CEO e fundador da empresa, António Mondlane, afirma que o crescimento da Menor Electronics tem sido sustentado essencialmente por esforço próprio. “Desde 2024 já vendemos mais de 2.200 unidades. A aceitação é boa e queremos chegar a cinco milhões até 2030”, revelou.
A evolução dos produtos é evidente. “Começámos com um produto. Hoje temos mais três, todos redesenhados, com nova engenharia, nova arquitectura e melhor desempenho”, explicou. Entre as melhorias destacam-se maior autonomia, carregamento via USB-C e a eliminação de componentes adicionais, como adaptadores.
Um dos exemplos é o Sky Keyboard, que evoluiu de uma versão dependente de dongle para uma solução mais autónoma e eficiente. “Agora já não precisa de adaptador, tem maior duração de bateria e melhor design”, detalhou.
Apesar dos progressos, a produção ainda enfrenta limitações. Actualmente, os produtos são concebidos em Moçambique, mas montados no exterior. “Desenhamos aqui, mas a montagem é feita na China. O nosso objectivo é, até 2035, produzir tudo localmente”, afirmou Mondlane.
Para atingir essa meta, a empresa está a investir em infra-estruturas próprias. Um novo edifício na Matola deverá entrar em funcionamento em Novembro, acompanhado de um laboratório que reforçará a capacidade de investigação e produção.
“Temos matérias-primas, como cobre e plástico. Estamos a fazer testes. Queremos produzir integralmente em Moçambique”, acrescentou.
Questionado sobre o apoio institucional, o empresário foi directo: “Não tivemos apoio do Governo. Desenvolvemos tudo com os nossos próprios meios. Se houver apoio, será bem-vindo. Caso contrário, continuamos a trabalhar”.
As declarações foram feitas à margem do lançamento recente do Menor All In One Pro, também designado “Celeste Pro”. O novo computador de alto desempenho pretende posicionar a indústria local num patamar competitivo, apresentando especificações de topo, incluindo um monitor curvo de 34 polegadas e uma configuração robusta, orientada para criadores e profissionais exigentes.




