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EM MENOS DE 2 SEMANAS: Mais de 13 mil pessoas abandonam aldeias em Ancuabe

Em apenas 12 dias, mais de 13 mil pessoas abandonaram as suas casas no distrito de Ancuabe, em Cabo Delgado, numa das mais rápidas vagas de deslocamentos registadas na província nos últimos meses. Os números divulgados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) mostram que a nova sequência de ataques terroristas e o receio de novas incursões provocaram uma fuga acelerada de famílias inteiras para centros de acolhimento e comunidades vizinhas, reacendendo a pressão humanitária numa zona que, nos últimos tempos, tinha deixado de ocupar o centro das atenções nacionais.

Texto: Arton Macie

Quando os primeiros relatórios começaram a circular no início de Maio, os números ainda pareciam relativamente contidos para os padrões de Cabo Delgado, que contabilizava um total de 4.254 deslocados até 5 de Maio. Poucos dias depois, porém, a dimensão da nova vaga de violência em Ancuabe ascendeu. Até 10 de Maio, o total de pessoas forçadas a abandonar as suas casas já tinha disparado para mais de 12 mil. Dois dias depois, chegaram 13.409 deslocados, segundo dados da OIM. 

Os acontecimentos recentes também coincidem com o aumento de relatos sobre movimentações insurgentes no sul e norte de Cabo Delgado. Nos últimos dias, relatórios do Monitor de Conflitos de Moçambique indicaram actividades armadas em zonas de Nangade, Mueda, Mocímboa da Praia e Ancuabe, incluindo ataques a posições militares, circulação de grupos armados perto da fronteira com a Tanzânia e incêndio de infra-estruturas, entre elas uma igreja católica em Ancuabe.   

Principais destinos dos deslocamentos

Os números da OIM mostram que a nova vaga de deslocamentos ocorreu sobretudo a partir das localidades de Meza e Minheuene, onde ataques, saques, incêndios e o receio de novas incursões provocaram fugas sucessivas de famílias inteiras. Muitas pessoas deslocaram-se a pé, transportando apenas pequenos bens, enquanto outras recorreram a meios improvisados para alcançar zonas consideradas relativamente mais seguras.  

Os principais pontos de chegada dos deslocados foram Nanjua A e Nanjua B, que juntos receberam mais de cinco mil pessoas. Namanhumbir-Sede acolheu outras quatro mil, enquanto centenas de famílias dispersaram-se por Muaja, Milamba 2, Majasse, Marocani e Sanja. A maioria destes locais já vinha recebendo populações afectadas por episódios anteriores de violência, o que agrava a pressão sobre alimentos, água, abrigo e serviços básicos.  

Está nova vaga de deslocamentos vem com um novo peso humano. Quase metade dos afectados são crianças, num universo estimado em cerca de 6.580 menores. Mulheres representam 29% do total, havendo ainda registo de idosos e mulheres grávidas entre as populações em fuga. Estes números mostram deslocamentos de agregados familiares completos, aos milhares, e não apenas movimentos isolados de homens jovens à procura de refúgio temporário.

Uma dinâmica diferente, mas igualmente preocupante

A dimensão dos novos deslocamentos ajuda igualmente a perceber uma mudança importante no comportamento da crise humanitária em Cabo Delgado. Nos anos mais intensos da guerra, os grandes fluxos populacionais estavam frequentemente associados à queda ou ocupação temporária de vilas estratégicas.

Desta vez, porém, bastaram ataques localizados e receio de novas incursões para provocar deslocamentos massivos em poucos dias. Isso torna a situação particularmente instável para as organizações humanitárias e autoridades locais. Diferentemente dos grandes deslocamentos concentrados de 2020 e 2021, os movimentos actuais tendem a ser mais rápidos, dispersos e repetidos, obrigando milhares de famílias a circularem continuamente entre aldeias, centros de acolhimento e comunidades hospedeiras.  

Segundo dados anteriores da OIM, Cabo Delgado continua a concentrar a maior parte dos deslocados internos provocados pelo conflito em Moçambique. Apesar da redução relativa observada em alguns períodos de 2025, a província mantém enormes bolsões de vulnerabilidade, sobretudo em distritos afectados por ataques recorrentes e deslocamentos sucessivos.  

Em Ancuabe, os números mais recentes mostram que a crise voltou a acelerar num espaço de dias. Depois de quase nove anos de conflito armado, milhares de pessoas continuam a abandonar tudo com a mesma rapidez dos períodos mais críticos da guerra.

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