Na cidade do Dondo, província de Sofala, esconde-se Macharote – uma comunidade onde o tempo parece ter parado e, com ele, uma prática amarga que hipoteca o futuro de meninas e adolescentes. “O que importa é o saco de arroz”, reportam residentes do bairro, denunciando o esquema de mães e avós que transformam filhas e netas em moeda de troca. O alvo são homens “bem ou minimamente sucedidos”: funcionários públicos e trabalhadores de empresas que alugam casas no bairro.
Texto: Anastácio Chirrute
Segundo fontes ouvidas pela nossa reportagem, o futuro das raparigas do bairro Macharote fica em segundo plano. “O que interessa é que não falte arroz, óleo e sabão em casa dos sogros. É assim que se mede o casamento naquele pequeno bairro da cidade de Dondo, na província de Sofala, baptizado pelo nome de Macharote.”
Na verdade, são as mães e avós que se dão ao trabalho de circular em cada casa com o objectivo único de identificar funcionários aparentemente solteiros para se tornarem pretendentes das suas filhas ou netas. Feito este trabalho, as mães mandam as meninas irem oferecer-se para lavar louça, cozinhar, lavar roupa, aquecer água para o banho. “É como se fosse um teste. Se o homem gostar, já fica combinado”, relata um jovem do bairro que preferiu o anonimato, mas que está preocupado com o futuro de tantas raparigas que são obrigadas a viver este dilema.
O serviço raramente para na cozinha. “Depois dizem à miúda para deitar com o homem. Ela tem medo, chora, mas a mãe manda calar. “É para o nosso bem, dizem”, acrescenta outra testemunha, uma mulher de 29 anos.
Em Macharote, o amor não casa. Casa a fome. As raparigas aprendem cedo que o corpo pode ser o único activo que a família tem para negociar. “Não há escolha. Se recusas, a mãe diz que és malcriada, que queres ver a família a sofrer. Acabas por aceitar para não ser expulsa de casa”, desabafa uma adolescente de 17 anos, sob condição de anonimato.
Quando o silêncio esconde doenças, lixo e vulnerabilidade
Macharote, à primeira vista, é um bairro tranquilo. Crianças correm pelas ruas de terra, adolescentes conversam em grupos e adultos vão e vêm com passos apressados, numa alegria que parece contagiante. Mas por baixo dessa aparente normalidade, pulsa uma realidade silenciosa que adoece e consome os moradores por dentro.
Mesmo à luz do dia, enxames de mosquitos circulam pelas residências e por todo o bairro. Atacam quem vive e quem passa. À noite, a situação piora. Nem a fumaça do “dragão” nem o Baygon espantam os mosquitos transmissores da malária. Eles resistem, caçam e voltam. A causa é conhecida e evitável: a falta de saneamento. Várias famílias despejam lixo dentro dos quintais. Poucas abrem covas para enterrar os resíduos. A maioria joga tudo de forma desordenada, como se a própria saúde não importasse. O contentor instalado pelo Conselho Municipal permanece vazio. “Preferem o método tradicional”, dizem os vizinhos, pondo em risco a vida de todos.
Mas não é o lixo o motivo central desta reportagem. O problema mais grave é a vulnerabilidade a que estão expostas muitas raparigas de Macharote. Sem alternativas económicas, algumas trocam de parceiros em busca de melhores condições de vida. Praticam este tipo de comportamento porque aqueles que as deviam proteger estão mais preocupados com os bens financeiros e materiais que as suas filhas recebem depois de se deitarem com homens, na sua maioria mais velhos.
Na tentativa de satisfazer os desejos das suas mães, muitas acabam por se envolver com homens portadores do VIH/SIDA. Quando descobrem o estado de saúde do parceiro com quem passaram a noite anterior, já é tarde demais. “Namorar uma rapariga de Macharote é como meter a mão no fogo. É arriscado. É preciso redobrar a prevenção, usar preservativo e ter a certeza de que se está protegido. Se não, a cama do hospital pode ser a próxima morada”, desabafa um jovem do bairro.
É um negócio silencioso que sacrifica o futuro de adolescentes em nome da sobrevivência imediata. Não se fala de mais nada em Macharote que não seja sobre as meninas que, em tão pouco tempo, se tornaram famosas – mas não pelo bom comportamento. Ficaram conhecidas por terem sido transformadas em minas ou bombas preparadas para explodir a qualquer momento. Por isso aceitam envolver-se com qualquer homem que as pretenda. As relações sexuais, muitas das vezes, são praticadas sem o uso do preservativo e, porque elas ostentam um corpo bonito, os homens acabam mergulhando de cabeça, arriscando a sua própria saúde.
Enquanto o lixo se acumula nos quintais e o saneamento falha, a malária continua a ceifar vidas. Enquanto a pobreza aperta, o corpo das raparigas vira moeda de troca e a doença do século avança sem freio. Macharote sorri de dia. Mas, de noite, chora em silêncio.




