Moçambique enfrenta mais uma crise económica sem solução imediata à vista. A escassez de combustíveis e a falta de divisas nos bancos comerciais comprometeram pagamentos externos, provocando uma subida generalizada dos preços. O diesel e a gasolina dispararam, arrastando consigo os custos do transporte urbano, distrital e interprovincial. O mesmo aconteceu com materiais de construção, como cimento e varões de ferro. Para Bruno Comini, economista, académico e delegado provincial da Câmara de Comércio de Moçambique em Inhambane, a solução não passa apenas por medidas de emergência, mas por uma transformação estrutural da economia nacional.
Texto: Anastácio Chirrute, em Inhambane
“Moçambique precisa criar políticas claras, com visão de longo prazo, que conduzam à industrialização. O país também precisa exportar mais bens e serviços. Só assim conseguirá gerar dólares”, defendeu.
Choques externos e fragilidade interna
Segundo Bruno Comini, a actual crise teve origem externa, impulsionada pela tensão entre os Estados Unidos da América e o Irão, que agravou os preços internacionais dos combustíveis.
Contudo, recorda que este não é um fenómeno isolado. Nos últimos anos, o país enfrentou sucessivos choques económicos e sociais, marcados pela pandemia da COVID-19, manifestações pós-eleitorais, cheias e inundações.
“Antes da COVID-19, vivíamos períodos de inflação relativamente baixa. Os preços subiam de forma moderada. Hoje, estamos expostos a choques que não controlamos. Podemos minimizar os impactos, mas não eliminá-los”, explicou.
Na prática, acrescenta, qualquer aumento do preço do petróleo no mercado internacional acaba por repercutir-se directamente nos custos de transporte, materiais de construção e produtos alimentares em todo o país.
“Vivemos reféns do mercado internacional”, resumiu.
A dependência da matéria-prima Comini considera que Moçambique continuará vulnerável enquanto permanecer dependente da exportação de matériaprima sem transformação local.
“Enquanto formos apenas consumidores e exportadores de matéria bruta, continuaremos reféns dos cartéis multinacionais”, afirmou.
O economista aponta os exemplos de Angola e Nigéria, países que conseguem amortecer melhor os impactos das oscilações internacionais por possuírem refinarias próprias.
“Angola e Nigéria têm preços mais baixos porque produzem e controlam as suas refinarias. Nós não.
Assinar acordos isolados com esses países não resolve o problema. Precisamos de uma política clara que permita transformar o gás, o carvão e outras matérias-primas dentro do país”, sustentou.
Como exemplo, citou o projecto do gás doméstico, já inaugurado, mas cujos benefícios ainda não chegaram à maioria da população.
“Angola não sofreu este choque porque tem refinaria local. Nós precisamos desenhar políticas que nos conduzam à independência do mercado internacional”, frisou.
Apesar de Moçambique possuir abundantes recursos naturais, Comini entende que ainda faltam tecnologia, capacidade industrial e capital humano qualificado para transformar essas potencialidades em desenvolvimento económico efectivo.
Defende, por isso, que o foco imediato deve ser a criação das bases para a industrialização, geração de emprego, valorização da matéria-prima nacional e expansão da produção interna.
“Sem isso, a crise de liquidez vai continuar. Importamos mais do que exportamos. Quando importas, exportas dólares; quando exportas, importas dólares. Como importamos mais, o dólar sai do país e os bancos comerciais ficam sem divisas para garantir pagamentos externos”, explicou.
“O sector privado precisa de condições”
Para Bruno Comini, um dos maiores riscos actuais é o crescimento acelerado da população jovem sem oportunidades de emprego.
“Todos os anos, cerca de 500 mil jovens entram no mercado de trabalho, mas os programas governamentais criam apenas algumas dezenas de postos. Isto é uma bomba demográfica prestes a explodir”, alertou.
Na sua visão, o Governo deve concentrar-se em criar condições para que o sector privado invista, cresça e gere emprego sustentável.
“O Estado precisa garantir que os lucros das empresas sejam reinvestidos cá dentro”, acrescentou.
O economista criticou ainda a postura fiscal adoptada em plena crise económica, defendendo maior sensibilidade para com as empresas nacionais.
“Há uma empresa na Maxixe que exporta bagaço de coco para a Índia e recebeu uma multa de cinco milhões de meticais. Estamos a acarinhar ou a afugentar as empresas? Este é o momento de subsidiar, acompanhar e estabilizar”, questionou.
“O povo é resiliente, mas tem limites”
Comini reconhece a capacidade de resistência dos moçambicanos perante as dificuldades, mas alerta que essa resiliência tem limites.
“A situação está a piorar. Tenho a impressão de que o Governo não conhece os problemas reais do país. É preciso descer à base. O Presidente não pode ir ao campo ver com os próprios olhos? Comparando com há três anos, estamos pior. Em Mucoduene vivia-se melhor há cinco anos”, afirmou.
Quanto ao futuro da economia e da indústria nacional, o economista admite que as perspectivas para os próximos meses continuam incertas e pouco animadoras.
Ainda assim, insiste que não existe alternativa fora da transformação estrutural da economia moçambicana.




