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Moçambicanos mais pobres mas com menos fome

Moçambique figura entre os países que mais progressos registaram na redução da fome nas últimas duas décadas, segundo o mais recente Índice Global da Fome (Global Hunger Index – GHI) 2025. O dado surge, contudo, num momento paradoxal: enquanto os indicadores de subnutrição mostram melhorias consistentes, a pobreza no país agravou-se drasticamente, atingindo cerca de 65% da população em 2022, de acordo com a Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE) 2025-2044.

Texto: Dossier Económico

O relatório do GHI 2025 coloca Moçambique ao lado de Ruanda, Somália, Togo e Uganda entre os países com progressos mais notáveis no combate à fome. A pontuação moçambicana caiu de 46,8 em 2000 para 25,9 em 2025, uma redução considerada significativa, embora o país permaneça ainda na categoria de “fome grave”. Em 2016, a pontuação era de 36,4, o que significa que, em menos de uma década, houve uma melhoria superior a dez pontos.

Os dados mostram igualmente avanços em indicadores nutricionais e de sobrevivência infantil. A subnutrição afectava 21,8% da população entre 2022 e 2024, muito abaixo dos 36,4% registados no início dos anos 2000. A mortalidade infantil caiu de 16,3 por mil em 2000 para 6,2 por mil em 2023, enquanto a taxa de emaciação infantil se fixou em 3,8%.

Apesar destes avanços, o relatório alerta que os ganhos permanecem extremamente frágeis. O documento, produzido pela Welthungerhilfe (WHH), pela Concern Worldwide e pelo Instituto para o Direito Internacional da Paz e dos Conflitos Armados (IFHV), sublinha que conflitos armados, choques climáticos e cortes na ajuda humanitária ameaçam inverter rapidamente os progressos alcançados.

O norte do país, particularmente a província de Cabo Delgado, é apontado como o principal foco de vulnerabilidade. A combinação entre terrorismo, deslocamentos populacionais e fenómenos climáticos extremos continua a comprometer a segurança alimentar de milhares de famílias. O relatório refere que ataques armados têm atingido comunidades já fragilizadas pelas perdas agrícolas provocadas por ciclones e chuvas intensas.

A situação torna-se ainda mais preocupante quando confrontada com os dados da pobreza. Segundo a Estratégia Nacional de Desenvolvimento aprovada pelo Governo, a pobreza de consumo aumentou de 46,1% em 2014/15 para 68,2% em 2019/20, tendo reduzido apenas ligeiramente para 65% em 2022. Isto significa que, em apenas uma década, a pobreza agravou-se em cerca de 87%.

O próprio Governo reconhece que os ciclones Idai e Kenneth, a escalada dos preços dos alimentos, os choques climáticos e a violência armada no norte contribuíram fortemente para o agravamento das condições de vida da população. As zonas rurais continuam a ser as mais afectadas, com 68,4% da população em situação de pobreza, mas as áreas urbanas também registam níveis elevados, atingindo 58,4%.

Nas províncias do norte, o cenário é ainda mais severo, com mais de 70% da população afectada pela pobreza de consumo. Ainda assim, o relatório indica que a pobreza multidimensional registou melhorias mais moderadas, passando de 55% em 2014/15 para 53,1% em 2022, sugerindo avanços no acesso à educação e à água potável.

Persistem, porém, graves défices em habitação, saneamento, acesso à electricidade e posse de bens duráveis, sobretudo nas zonas rurais, onde vive a maior parte da população moçambicana. O Governo admite igualmente que os sistemas de protecção social continuam limitados, apesar do aumento do número de beneficiários da segurança social básica, que passou de 254 mil para 384 mil entre 2010 e 2023.

O contraste entre a melhoria dos indicadores da fome e o agravamento da pobreza revela uma realidade complexa: embora mais pessoas tenham hoje acesso mínimo à alimentação e serviços básicos, milhões de moçambicanos continuam sem rendimento suficiente, vulneráveis a choques económicos e climáticos e dependentes de mecanismos precários de sobrevivência.

O GHI 2025 conclui que, sem investimentos urgentes em sistemas agro-alimentares resilientes, adaptação climática, protecção social e estabilização das zonas afectadas pelo conflito armado, Moçambique poderá assistir a uma rápida reversão dos progressos alcançados. O objectivo de erradicar a fome até 2030 é agora considerado praticamente inalcançável, exigindo maior compromisso político e reforço do apoio internacional.

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