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NA LOCALIDADE DE METUCHIRA, EM SOFALA: Um professor está para mais de 100 alunos

– Centro de saúde funciona sem medicamentos nem equipamento

A cerca de 12 quilómetros da vila-sede do distrito de Nhamatanda, na província de Sofala, a localidade de Metuchira vive mergulhada em carências profundas que afectam praticamente todos os sectores sociais. Falta água potável, escasseiam transportes, as escolas não têm condições e o único centro de saúde da região funciona sem medicamentos suficientes nem equipamento adequado. A reportagem do Dossiers & Factos percorreu a localidade e encontrou uma população obrigada a sobreviver entre longas caminhadas, precariedade dos serviços públicos e ausência de oportunidades para os jovens.

Texto e imagem: Hélio de Carlos

Logo à entrada da localidade, percebe-se a dimensão das dificuldades enfrentadas pelos moradores. Metuchira possui apenas uma unidade sanitária para atender milhares de pessoas espalhadas por vários bairros e zonas rurais.

“Estamos numa corrida aqui”, resume Carlos Liberantes Carvalho, responsável pela Unidade Sanitária de Metuchira, ao descrever o funcionamento do centro de saúde.

 Segundo explicou, a unidade trabalha em condições extremamente limitadas.

“Na verdade, estamos a trabalhar, mas com enormes dificuldades. Trabalhamos sem luvas para atendimento dos pacientes e os medicamentos também não chegam para todos. Há roturas frequentes”, afirmou.

A escassez de material médico e medicamentos compromete directamente a qualidade do atendimento prestado à população.

“Os pacientes chegam aqui à espera de encontrar um atendimento condigno, mas devido às limitações do sistema acabamos por não conseguir responder como devíamos”, lamentou.

Apesar de os pedidos de reposição serem regularmente submetidos às autoridades distritais, a resposta nem sempre chega em tempo útil.

“Nós fazemos a nossa parte e solicitamos aquilo que falta. Mas, muitas vezes, nem o distrito tem material disponível para nos fornecer”, explicou Carvalho.

Entre os produtos mais escassos estão luvas, máscaras e material médico-cirúrgico. Na maternidade, a situação tornou-se tão crítica que as próprias grávidas são orientadas a levar materiais básicos para garantir assistência durante o parto.

“Pedimos às parturientes para adquirirem pelo menos um par de luvas e guardarem consigo. Assim, quando chegar o momento do parto, conseguem ser atendidas sem tantas dificuldades”, contou.

Outro dos grandes desafios enfrentados pela unidade sanitária é a esterilização do material médico. O centro não possui equipamento eléctrico adequado e depende de um autoclave a lenha.

“Temos um autoclave a lenha, mas muitas vezes nem lenha temos. Acabamos por improvisar para conseguir atender os pacientes”, explicou o responsável.

Devido às longas distâncias e à falta de meios de transporte, o centro de saúde criou uma “Casa Mãe Espera”, uma pequena estrutura improvisada onde grávidas provenientes de zonas mais distantes permanecem nos dias que antecedem o parto, reduzindo o risco de complicações durante deslocações de emergência.

Estradas precárias agravam isolamento da população

A questão dos transportes é outro drama diário para os moradores de Metuchira. Na região praticamente não circulam viaturas de transporte público, sendo as moto-táxis o principal meio de deslocação.

“O transporte mais usado aqui são as moto-táxis. Carros praticamente não existem”, contou um residente. As más condições da estrada elevam os custos das viagens.

“Alguns cobram 170 meticais. Outros aceitam 70 meticais quando seguem três pessoas na mesma motorizada”, explicou.

Muitos moradores recorrem ainda às bicicletas para transportar pessoas e mercadorias, sobretudo em zonas onde as motorizadas já não conseguem circular.

Durante a época chuvosa, a situação torna-se ainda mais omplicada. A estrada de terra batida transforma-se numa via praticamente intransitável, dificultando a circulação de motoqueiros e ciclistas.

Além dos problemas de mobilidade, Metuchira enfrenta igualmente uma grave crise de acesso à água potável.

“Há muita dificuldade de água e as pessoas acabam por usar água do rio, que é muito suja e contaminada”, relatou Sofia Marcos Fernando, residente no quarto bairro.

Segundo explicou, na comunidade existem apenas duas fontenárias, insuficientes para atender toda a população.

“A água da bomba usamos apenas para beber e cozinhar. Para tomar banho e lavar roupa recorremos ao rio”, afirmou.

O problema é agravado pela presença de crocodilos nas margens, “Tomamos banho em grupo por segurança. Nunca tivemos um ataque, mas temos medo”, contou.

Escola sem condições e jovens sem perspectivas

Na área da educação, o cenário também é preocupante. A Escola Primária Completa de Metuchira funciona com infra-estruturas precárias e turmas superlotadas.

David Dinima Veneça, professor da instituição, explicou que a escola passou a leccionar até à nona classe sem que houvesse melhoria das condições.

“Temos 17 salas, mas apenas três estão em condições. As restantes são de barro e chapas”, disse. A falta de carteiras obriga muitos alunos a assistirem às aulas sentados no chão.

“Temos alunos da oitava e nona classes, já com 17 ou 18 anos, sentados no chão por falta de condições”, lamentou.

A escassez de professores agrava ainda mais o problema. “Há turmas com 110 ou 120 alunos para um único professor. Assim torna-se quase impossível acompanhar as dificuldades individuais de cada estudante”, explicou.

O docente, que foi aluno da mesma escola desde 1998, afirma que continua a sonhar com melhores condições para as crianças da comunidade. “Não precisamos necessariamente de edifícios luxuosos. Mesmo salas de madeira já ajudariam muito.

O importante é dar dignidade às nossas crianças”, apelou. Fora da escola, o desemprego domina o quotidiano da juventude local. Sem oportunidades de formação ou emprego, muitos jovens acabam por dedicar-se à agricultura de subsistência ou à criação de gado.

“Não existem projectos para os jovens e praticamente não há emprego aqui”, resumiu Sofia Marcos. Para os moradores, Metuchira continua esquecida, apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas diariamente.

“É uma comunidade pequena, mas que passa por situações muito difíceis”, concluiu Carlos Carvalho, defendendo maior atenção do Governo às necessidades básicas da população daquela região do centro do País.

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