Moçambique registou, em 2025, o mais baixo nível de execução de recursos externos dos últimos anos, numa queda considerada inédita mesmo quando comparada aos períodos mais críticos da crise das dívidas ocultas e da pandemia da Covid-19. Dados constantes das Contas Gerais do Estado (CGE), analisados pelo Dossier Económico, mostram que apenas 34,7% do financiamento externo previsto no Orçamento do Estado foi efectivamente desembolsado ao longo do ano passado. Trata-se do pior desempenho registado na última década e meia.
Texto: Arton Macie
A taxa de execução dos recursos externos mede a diferença entre o volume de financiamento internacional inicialmente previsto pelo Estado e o montante que realmente entra nos cofres públicos durante o exercício económico. Na prática, significa que uma parte significativa dos donativos, créditos e apoios externos inscritos no orçamento acaba por não se materializar.
Os números contrastam fortemente com os registados em anos anteriores. Em 2016 e 2017, auge da crise provocada pela revelação das dívidas ocultas, Moçambique ainda conseguia executar cerca de 87,9% do financiamento externo previsto.
Naquele período, o país enfrentava uma das maiores crises financeiras da sua história recente, marcada pela suspensão do apoio directo ao Orçamento do Estado por parte de vários parceiros internacionais, deterioração da confiança externa e agravamento da dívida pública. Mesmo assim, os níveis de desembolso externo mantiveram-se relativamente elevados.
A tendência de deterioração começou a tornar-se mais visível nos anos seguintes. Em 2021, já sob os efeitos económicos da pandemia da Covid-19 e das pressões sobre a dívida pública, a execução caiu para 70,4%, valor que, ainda assim, permanece muito acima do actualmente registado.
A quebra para 34,7% em 2025 evidencia uma redução significativa da capacidade do Estado em concretizar o financiamento externo previsto no Orçamento, num contexto de crescente pressão fiscal e financeira.
Embora as Contas Gerais do Estado não apresentem uma explicação directa para esta deterioração, os próprios relatórios ajudam a compreender a transformação do ambiente financeiro internacional em torno de Moçambique.
Antes da crise das dívidas ocultas, grande parte do apoio externo era canalizada directamente para o Orçamento do Estado e para programas públicos de investimento. Contudo, após o escândalo financeiro, os parceiros internacionais passaram a privilegiar mecanismos mais condicionados, associados a reformas macroeconómicas, assistência técnica, programas específicos ou financiamento de emergência.
As edições mais recentes das CGE revelam igualmente um aumento da pressão sobre as finanças públicas, com destaque para o crescimento da dívida pública, maior recurso a Bilhetes e Obrigações do Tesouro, além de despesas extraordinárias relacionadas com a pandemia.
Ainda assim, os dados de 2025 colocam o país perante um cenário sem precedentes recentes, revelando uma diferença histórica entre o financiamento externo esperado pelo Estado e os recursos efectivamente recebidos.




