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Hlalelane!

Por Pascoal Malate

O país que um dia emocionou o mundo ao derrotar o apartheid parece caminhar perigosamente para uma nova forma de segregação. Não uma segregação legalizada pela cor da pele, mas uma exclusão alimentada pelo ódio, pela intolerância e pela crescente hostilidade contra os seus próprios irmãos africanos. A xenofobia deixou de ser um episódio isolado para se transformar numa ferida aberta que ameaça contaminar toda a região.

O exemplo do fraco apoio à África do Sul no mundial de futebol é o sinónimo da fatura paga pela xenofobia. O futebol sempre foi um elemento de união e de festa, mas agora transformou-se numa oportunidade para se questionar até que ponto somos realmente irmãos. A região toda apoia qualquer equipa que defronte a selecção sul-africana neste campeonato, não interessando o nível de afinidade, mas a chance de ver o país irmão derrotado.

Lamentavelmente, as imagens repetem-se. Corpos caídos. Lojas saqueadas. Famílias aterrorizadas. Sonhos destruídos. Estrangeiros perseguidos apenas porque nasceram do outro lado de uma fronteira desenhada pelos homens. O mais inquietante não é apenas a violência em si, mas a aparente normalização da barbárie. Como se a morte tivesse adquirido cidadania e o medo se tivesse tornado política pública.

A cada novo ataque, a pergunta torna-se mais pesada: onde está o Estado sul-africano? Onde está a liderança política capaz de erguer a voz contra a intolerância? O governo parece observar os acontecimentos com uma inquietante passividade, como quem confunde responsabilidade com indiferença. O país caminha para um precipício social enquanto os seus dirigentes parecem mergulhados num sono profundo.

A história ensina que o ódio raramente permanece dentro dos limites que inicialmente lhe são impostos. Hoje as vítimas são os estrangeiros. Amanhã poderão ser grupos étnicos, comunidades locais ou cidadãos identificados como diferentes. Quando a violência encontra espaço para crescer sem resposta firme das instituições, ela deixa de escolher nacionalidades. Passa a escolher apenas alvos.

Mais preocupante ainda é o silêncio dos organismos regionais e continentais. A Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e a União Africana parecem assistir a tudo com uma serenidade incompreensível. A mesma África que se uniu contra o colonialismo, que combateu o apartheid e que proclamou a fraternidade entre os povos, mostra-se hoje incapaz de reagir perante ataques sistemáticos contra cidadãos africanos em solo africano.

O silêncio da SADC e da União Africana não pode ser confundido com neutralidade. Quando vidas humanas estão em risco, a neutralidade transforma-se numa forma de cumplicidade. Os princípios da dignidade humana, da solidariedade e da integração regional não podem existir apenas nos discursos oficiais, nos comunicados diplomáticos ou nas fotografias de cimeiras. Precisam de existir onde mais importam: na defesa da vida.

A África do Sul ocupa uma posição estratégica no continente. É uma potência económica, um símbolo histórico de resistência e uma referência política para milhões de africanos. Justamente por isso, tem uma responsabilidade maior. Quando o Estado falha em proteger aqueles que vivem e trabalham dentro das suas fronteiras, envia uma mensagem perigosa para toda a região. A mensagem de que a violência pode ser tolerada. De que o medo pode substituir a lei.

Ainda há tempo para inverter este caminho. Ainda há tempo para que o governo sul-africano assuma a liderança moral que a sua história exige. Ainda há tempo para que a SADC e a União Africana abandonem a indiferença e cumpram o seu dever de defesa dos direitos humanos.

Porque a África que sonhámos não foi construída para que africanos caçassem africanos.

Foi construída para que todos encontrassem nela um lar. Mandela deve estar totalmente decepcionado com tudo isto.

Hlalelane Ndzingu Maxaka!

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