O baleamento mortal de um agente da Polícia da República de Moçambique (PRM), na madrugada do último sábado, 06 de Junho, na cidade da Matola, eleva para seis o número de casos de agentes da corporação mortos por disparos num universo de sete emboscadas registadas desde Junho de 2025 até à data. A sequência de ataques, concentrada sobretudo na área metropolitana de Maputo, expõe um padrão de violência extrema e tem alimentado um clima crescente de apreensão no seio da própria polícia e na sociedade em geral.
Texto: Dossiers & Factos
Este último caso ocorreu ao longo da Avenida 4 de Outubro, nas proximidades do Estádio da Independência (antigo Estádio da Machava), quando o agente se encontrava no interior da sua viatura. Segundo testemunhas, antes dos disparos terá ocorrido uma breve discussão entre os autores do crime e a vítima, após a qual foram efectuados vários tiros que culminaram na sua morte. As autoridades ainda investigam as circunstâncias do homicídio.
Este episódio inscreve-se numa cadeia de ataques armados com características semelhantes, quase todos executados em ambiente urbano, recorrendo a emboscadas e a um elevado volume de fogo. A brutalidade das acções tem sido uma das marcas mais evidentes desta vaga de violência, frequentemente descrita por fontes policiais como “execuções sumárias” ou “acções de elevada precisão operacional”.
Este padrão começou a ganhar maior consistência a 11 de Junho de 2025, no bairro de Nkobe, na Matola, quando um agente da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) foi surpreendido por dois veículos enquanto conduzia uma viatura oficial. O corpo ficou crivado de balas, na sequência de uma rajada estimada em dezenas de disparos.
Algumas semanas depois, a 02 de Julho de 2025, outros dois agentes — um da PRM e outro alegadamente do SERNIC — foram assassinados no bairro de Infulene, também na Matola, quando se faziam transportar numa viatura ligeira. Testemunhas relataram que terão sido efectuados mais de 30 disparos até à execução dos alvos.
Acto contínuo, quase dois meses depois, a 09 de Setembro do mesmo ano, um outro agente, que pertencia à unidade do Grupo de Operações Especiais (GOE) e que terá participado no fuzilamento de dezenas de reclusos na Cadeia Central da Machava durante a evasão de Dezembro de 2024, foi igualmente morto a tiro quando saía da sua residência no bairro de Ndlavela. O ataque, ocorrido em plena zona residencial, gerou pânico entre os moradores e levou ao reforço temporário da presença policial.
No mês seguinte, a 01 de Outubro de 2025, um agente do SERNIC foi alvo de uma emboscada na cidade da Matola e escapou com vida, sendo este o único caso de sobrevivência registado no período. Ainda assim, o ataque provocou a morte de duas pessoas que passavam no local, vítimas de balas perdidas, evidenciando o impacto colateral destas acções em zonas densamente povoadas.
No final de Outubro de 2025, a comandante distrital da PRM em Marracuene, com ligações ao alto comando da corporação, foi igualmente alvejada dentro da sua viatura de serviço, ao longo da Estrada Circular de Maputo. A vítima não resistiu aos ferimentos, naquele que viria a ser mais um ataque do mesmo padrão.
Como se fosse uma abertura simbólica do novo ano da violência, a 03 de Janeiro de 2026, outro agente do SERNIC foi morto no bairro do Fomento, na Matola, quando homens armados e encapuzados abriram fogo contra si durante um convívio com familiares e amigos. O caso, marcado por um elevado grau de exposição pública, chocou os residentes pela audácia dos atacantes.
Medo no seio dos garantes da segurança
Em regra geral, os casos acima descritos apresentam um conjunto de elementos recorrentes: utilização de viaturas para bloqueio e perseguição, ataques com armas de fogo, execução das vítimas em espaços públicos ou residenciais e fuga rápida dos autores. Em vários episódios, os veículos das vítimas ficaram completamente crivados de balas, sugerindo um nível de coordenação que ultrapassa a criminalidade comum.
No seio da PRM e do SERNIC — este último actualmente sob tutela da Procuradoria-Geral da República — fontes reconhecem que a sucessão destes ataques tem gerado um clima de tensão e desconfiança, com impacto directo na moral das corporações. A sensação de que os agentes podem ser seguidos, identificados e atacados fora do serviço tem alimentado um sentimento crescente de vulnerabilidade.
Este clima é particularmente intenso na zona metropolitana do Grande Maputo, sobretudo na Matola e arredores, área que concentra a maioria dos casos registados.
As autoridades policiais têm reiterado que decorrem investigações em todos os episódios, apelando à calma da população.
No entanto, até ao momento, não há registo de detenções, o que reforça, no seio da sociedade, a percepção de impunidade destes grupos armados, apelidados em alguns círculos como “esquadrões da morte”.
Mesmo assim, a pergunta permanece sem resposta: afinal, quem anda a matar polícias?




