A riqueza natural que faz da Reserva Especial do Niassa uma das mais importantes áreas de conservação de África é também uma das principais fontes de preocupação para as comunidades que vivem no seu interior. No distrito de Mavago, onde cerca de 98% da população vive em áreas localizadas dentro da reserva, a convivência com a fauna bravia faz parte do quotidiano de mais de 41 mil habitantes que partilham o mesmo território com crocodilos, cobras, búfalos, porcos-bravos e outras espécies selvagens.
Texto: Arton Macie
Ao contrário do que acontece noutras zonas do País, onde a presença de animais está confinada a áreas relativamente afastadas dos aglomerados populacionais, em Mavago a fronteira entre o espaço humano e o espaço selvagem é ténue, praticamente inexistente. Os mesmos rios que servem as comunidades são frequentados por crocodilos; as mesmas áreas utilizadas para a produção agrícola atraem animais em busca de alimento; e os caminhos percorridos diariamente pela população atravessam uma paisagem onde os sinais da presença da fauna fazem parte da rotina.
A abundância de vida selvagem, frequentemente apontada como uma das maiores riquezas da reserva, é também o elemento que transforma a convivência entre homens e animais num desafio permanente. Essa proximidade continua a produzir consequências humanas e económicas.
Em conversa com o Dossiers & Factos, a administradora distrital de Mavago, Cecília Cassiano, apontou o conflito homem-fauna bravia como um dos principais problemas enfrentados pela região e revelou que, só este ano, foram registadas três mortes provocadas por ataques de animais.
“Só para referenciar, ainda este ano tivemos três casos de morte, dos quais dois adolescentes morreram porque estavam na berma de um rio e dois crocodilos acabaram por devorá-los. Outro senhor, de 36 anos, também foi mordido por uma cobra e acabou por morrer”, afirmou. Na data em que se realizou esta entrevista, havia ainda relatos de um búfalo desgovernado que aterrorizava a localidade de Mavago-sede, uma amostra da frequência com que estes eventos acontecem.
A fauna bravia continua igualmente a ameaçar os meios de subsistência de dezenas de famílias que dependem da agricultura para garantir alimentação e rendimento. Sempre que os animais abandonam as áreas mais densas da reserva e se aproximam das zonas de produção, culturas inteiras podem ser destruídas em poucas horas, comprometendo meses de trabalho dos produtores.
Segundo a administradora, cerca de 72 famílias foram afectadas pela devastação de áreas agrícolas provocada por animais selvagens este ano. “Tivemos uma devastação de 12,9 hectares porque os búfalos, porcos e outros animais acabaram por destruir os campos de produção dos agricultores. Esses são os principais problemas que estamos a enfrentar”, explicou.
A situação é particularmente sensível porque a população não enfrenta apenas perdas materiais. Em muitas comunidades, a própria organização da vida diária é condicionada pela presença da fauna. Horários de deslocação, actividades agrícolas e percursos utilizados pelos residentes são frequentemente adaptados em função dos riscos associados aos movimentos dos animais, sobretudo durante a noite, quando a circulação da fauna se torna mais intensa.
“Até às 18 horas não circulam mais. Como estamos no meio da reserva e rodeados por muitos animais, há casos de emergência em que as pessoas não têm alternativa: têm de arriscar e enfrentar”, concluiu a administradora, resumindo a realidade de milhares de pessoas cujo quotidiano, no interior de uma das maiores reservas africanas, significa partilhar o território com os seus habitantes mais antigos.
Perante este cenário, as autoridades locais e a administração da reserva procuram soluções capazes de reduzir os conflitos sem comprometer a preservação do ecossistema. Entre as medidas em análise está a criação de mecanismos de separação entre as áreas de produção agrícola e as zonas de maior circulação de animais. “Estamos a discutir a possibilidade de construção de cercas ou vedações, para que haja alguma delimitação entre a zona de produção e a zona da Reserva do Niassa”, revelou Cecília Cassiano.
A administradora mostrou-se igualmente optimista em relação às medidas já implementadas pela reserva, com destaque para a disponibilização de meios de afugentamento da fauna e outras estratégias destinadas a reduzir a pressão sobre as comunidades. Os postos administrativos de Mavago-sede e M’sawize são actualmente os mais afectados pelos conflitos homem-fauna, com maior incidência de casos neste último. Enquanto soluções mais estruturais continuam a ser discutidas, a população mantém-se dependente de estratégias de adaptação desenvolvidas ao longo de décadas de convivência com a vida selvagem.




