– É a mais alta figura do clero a ser morta em Moçambique
A Igreja Católica em Moçambique volta a viver momentos de consternação após o assassinato de Dom Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane, ocorrido na madrugada do último sábado, 06 de Junho de 2026. Segundo dados do levantamento feito pelo Dossiers & Factos, trata-se do quarto caso de assassinato de clérigos nos últimos 20 anos no País, sendo Dom Osório a mais alta figura da hierarquia da Igreja Católica assassinada em Moçambique neste período. Curiosamente, todas as vítimas foram executadas nas próprias residências religiosas e os seus autores nunca foram identificados.
Texto: Dossiers & Factos
De acordo com informações prestadas pelo Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), na Zambézia, indivíduos ainda não identificados escalaram o muro da residência episcopal, vandalizaram o sistema de segurança eléctrica e dispararam contra Dom Osório com uma arma de fogo do tipo AK-M, atingindo-o no peito, concretamente na região do coração, acto ocorrido no interior da casa, em pleno corredor, ao que tudo indica, quando este tentava fugir dos assassinos.
Profundos factos
A sede da Diocese de Quelimane, onde residia o bispo juntamente com outros clérigos, localiza-se numa zona considerada nobre desta cidade. O recinto diocesano faz fronteira com várias instituições, nalguns casos separado apenas por muros de vedação e, noutros, a escassos metros.
Entre os vizinhos imediatos contam-se o Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE) na Zambézia, o edifício do Governo Provincial e ainda a sede provincial da FRELIMO, actualmente a funcionar em regime provisório.
Em tese, segundo fontes, estas três instituições, pela sua natureza e relevância institucional, deveriam dispor de forte aparato de segurança. Ainda assim, nenhum dos elementos em serviço declarou ter ouvido qualquer som de disparos na noite em que o bispo foi assassinado.
Outro elemento considerado intrigante é o facto de o bispo não viver sozinho na Diocese. No entanto, nenhum dos seus co-habitantes afirmou ter ouvido o disparo que o vitimou.
Dossiers & Factos apurou ainda que, no mesmo dia do crime, horas antes, tinha terminado uma reunião provincial de quadros da FRELIMO na Zambézia, o que levanta a hipótese de um reforço da presença policial e de segurança na zona, pelo menos em teoria.
Um bispo que não chegou a completar um ano de missão
Fontes ligadas à Igreja Católica referem, em tom de lamento, que a Diocese de Quelimane esteve cerca de cinco anos sem bispo, na sequência da saída do anterior titular, alegadamente após denúncias de outros clérigos ao Vaticano relacionadas com má gestão do património eclesiástico. O agora falecido bispo terá introduzido, recentemente, mudanças significativas na administração episcopal de Quelimane, mexendo com figuras de relevo que, durante vários anos, estiveram ligadas à gestão do património da Igreja.
Até ao momento, a investigação policial prossegue sem resultados conclusivos, embora se saiba que alguns objectos, incluindo telemóveis de padres e irmãs, terão sido retidos para perícias.
Assim, caso não tivesse sido assassinado, Dom Osório completaria um ano no cargo de bispo de Quelimane em Agosto deste ano. 31
Anos de formação religiosa para no fim receber bala no coração
Dossiers & Factos realizou um levantamento do percurso de formação académica e religiosa do bispo assassinado, Dom Osório, que incluiu sete anos de ensino secundário, três anos de seminário menor e mais três anos de seminário médio. Seguiram-se quatro anos de Filosofia no Seminário São Pio X e três anos de Teologia.
Concluída esta fase, frequentou dois anos de formação no Diaconato até à ordenação sacerdotal. Posteriormente, cumpriu mais quatro anos de estudos no Instituto Pontifício Bíblico em Roma e exerceu o sacerdócio durante três anos.
Antes da sua elevação ao episcopado, passou ainda por mais dois anos de preparação, tendo sido posteriormente ordenado bispo, cargo que desempenhou por um período relativamente curto, até ao seu trágico falecimento, atingido por um disparo de arma AK-47 – um acto cuja brutalidade contrasta com o peso espiritual e comunitário que a sua figura representava no seio da comunidade cristã e da sociedade moçambicana no seu todo.
Pesar e repúdio dentro e fora do País
O assassinato de Dom Osório motivou reacções oficiais por parte de autoridades e instituições políticas e religiosas, a nível nacional e internacional. No plano interno, o Presidente da República, Daniel Chapo, emitiu um comunicado em que manifestou profundo pesar, considerando que a morte representa uma perda irreparável para a sociedade moçambicana e para a comunidade cristã, destacando o percurso do bispo dedicado à pastoral e à pregação da paz.
De igual modo, a RENAMO e o presidente do ANAMOLA, Venâncio Mondlane, pronunciaram-se publicamente através das suas redes sociais, lamentando o sucedido e afirmando que a perda desta voz constitui um golpe aos valores do diálogo no País. Por sua vez, a Conferência Episcopal de Moçambique, através do seu presidente e arcebispo de Nampula, Dom Inácio Saúre, repudiou o crime e apelou à solidariedade entre os fiéis perante o sucedido.
No plano internacional, o Papa Leão XIV manifestou o seu pesar pelo acto de violência, afirmando estar em oração com o povo de Moçambique e pedindo o fim das acções violentas. A União Europeia emitiu igualmente uma nota em que classificou o caso como uma perda profunda para a comunidade católica e defendeu a necessidade de as autoridades nacionais identificarem os responsáveis para que sejam julgados em tribunal.
Já a Embaixada dos Estados Unidos em Moçambique transmitiu condolências, enalteceu o trabalho realizado pelo prelado junto das comunidades locais e sublinhou a importância de uma investigação exaustiva e transparente por parte dos órgãos competentes.
Outros casos registados de 2006 a 2026
À primeira vista, o assassinato do bispo de Quelimane pode parecer um caso isolado, mas um simples recuo cronológico mostra que situações semelhantes não são estranhas no País.
Em Novembro de 2024, indivíduos não identificados tiraram a vida do padre Fernão Magalhães Raúl, na sua residência, no bairro de Namutequeliua, em Nampula. Um mês antes, o sacerdote tinha participado no processo eleitoral daquele ano como cabeça-de-lista do MDM ao cargo de governador da província.
Anteriormente, em Maio de 2019, registou-se o assassinato do padre Landry Ibil Ikwel, de nacionalidade congolesa, na cidade da Beira. O clérigo, que exercia funções na Diocese da Beira há cerca de dez anos e colaborava com a Comunidade de Santo Egídio em acções sociais, foi esfaqueado por desconhecidos na sua residência, no bairro da Manga.
Já em 2006, ocorreu um ataque à missão jesuíta de Fonte Boa, localizada na zona rural de Angónia, na província de Tete. A acção, levada a cabo por um grupo de homens armados, resultou na morte do padre brasileiro Waldyr dos Santos, de 69 anos, atingido por um disparo no peito, e da missionária e voluntária portuguesa Idalina Neto Gomes, de 30 anos, vítima de ferimentos por arma branca.
Antecedentes históricos: os mártires de Chapotera
Para além dos casos registados nas últimas duas décadas, o histórico de violência contra clérigos em Moçambique remonta ao período da guerra civil, com episódios cujas mortes também nunca foram esclarecidas pelas autoridades.
É o caso dos padres Sílvio Alves Moreira e João de Deus Gonçalves Kamtedza, missionários jesuítas, respectivamente português e moçambicano, que foram assassinados a 30 de Outubro de 1985, próximo da residência missionária de Chapotera, na província de Tete, onde exerciam actividade religiosa.
Desde 2023, o Vaticano encontra-se a analisar o processo para a eventual canonização de ambos os sacerdotes, conhecidos como os “mártires de Chapotera”.




