– Empresa já converteu cinco mil viaturas, mas tem capacidade para abastecer mais sete mil
A Autogás está a operar abaixo da sua capacidade instalada e pretende acelerar, de forma gradual e sustentável, a expansão do gás natural veicular (GNV) em Moçambique. Embora já tenha convertido cerca de cinco mil viaturas, a empresa dispõe de infra-estruturas capazes de servir, de imediato, mais sete mil veículos, um potencial que considera essencial aproveitar antes de avançar para novas zonas do País.
Texto: Milton Zunguze
Em entrevista ao Dossier Económico, o director-geral da Autogás, João das Neves, afirmou que a empresa entrou numa nova fase de desenvolvimento, após ultrapassar os desafios associados à implementação de um projecto pioneiro no mercado moçambicano.
Recorrendo a uma analogia com o ciclo de vida humana, o gestor afirmou que a empresa já deixou para trás as “doenças infantis” e encontra-se agora numa fase de consolidação.
“A saúde da Autogás é boa, mas, como qualquer ser humano, precisa sempre de cuidar da sua saúde. A Autogás cresceu, ultrapassou as doenças infantis, tornou-se adulta e agora precisa de actuar como tal”, afirmou.
Segundo João das Neves, esta maturidade reflecte-se no alargamento da rede de distribuição, no aumento do número de utilizadores e na consolidação de uma alternativa energética nacional.
“Temos vindo a expandir a rede de distribuição, com mais postos, mais centros de conversão, mais informação e maior robustez operacional. Estamos preparados para continuar este processo”, acrescentou.
Expansão será feita com prudência
Apesar da ambição de alargar a utilização do gás natural veicular, o responsável defende que a expansão deve ser sustentada por critérios económicos e não por decisões precipitadas.
Na sua opinião, construir infraestruturas sem uma procura consolidada poderá comprometer a rentabilidade dos investimentos realizados.
“É preciso crescer de forma gradual, em função das oportunidades e da certeza de que será possível recuperar o investimento”, explicou.
João das Neves sublinhou que o desenvolvimento deste mercado depende não apenas da Autogás, mas também do envolvimento do Estado, dos proprietários de viaturas, das empresas com frotas comerciais e dos representantes das marcas automóveis.
“É necessário que os utilizadores adiram ao processo, que o Estado crie condições de previsibilidade para os investimentos e que os representantes das marcas disponibilizem mais veículos movidos a gás”, defendeu.
Grande Maputo continua a ser prioridade
Embora o objectivo seja expandir o projecto a nível nacional, a empresa reconhece que a disponibilidade da infra-estrutura de transporte de gás continua a ser o principal constrangimento.
Segundo o director-geral, actualmente o gás natural está disponível sobretudo na região Sul, onde existe uma rede de transporte que permite abastecer os postos.
“O gás só está disponível, neste momento, na zona Sul e, mesmo aí, ainda existem várias limitações”. afirmou.
O responsável advertiu que transportar gás natural para regiões mais distantes poderá eliminar a vantagem económica do combustível.
“Se levarmos o gás de Pande e Temane para Beira ou para Manica, poderá chegar a essas cidades ao mesmo preço da gasolina. Nessa situação, perde-se a vantagem competitiva”, explicou. Por essa razão, a estratégia passa por consolidar primeiro o mercado da região do Grande Maputo, onde circulam cerca de 67% das viaturas do País.
“Faz sentido esgotar primeiro o potencial desses 67% da frota nacional e só depois expandir para outras regiões”, sustentou. Actualmente, a Autogás está a instalar novos postos ao longo da principal rota rodoviária do País, prevendo alargar progressivamente a rede à medida que a infra-estrutura de gás o permita.
Capacidade instalada supera procura actual
A empresa dispõe actualmente de oito postos de abastecimento e quatro centros de conversão, estando prevista a abertura de mais dois postos e dois novos centros durante o próximo ano.
Segundo João das Neves, cerca de cinco mil viaturas já circulam com gás natural veicular, embora a capacidade instalada permita abastecer aproximadamente 12 mil veículos.
“Temos capacidade para cerca de 12 mil viaturas e estamos actualmente com cinco mil consumidores. Isso significa que podemos converter mais sete mil viaturas de imediato”, revelou.
Apesar do aumento da procura pelos serviços de conversão, o gestor admite que esse crescimento ainda não se reflecte plenamente no consumo de gás.
“A procura pela conversão está a crescer, mas esse crescimento ainda não se traduz totalmente no volume de vendas de gás”, observou. Utilizadores destacam poupança De acordo com o director-geral, a principal vantagem apontada pelos consumidores é a significativa redução dos custos com combustível.
“Os moçambicanos que já utilizam o gás natural veicular estão muito satisfeitos com o impacto que isso tem nas suas vidas”, afirmou.
Além da poupança financeira, João das Neves considera que o recurso ao gás natural reduz a saída de divisas, cria oportunidades de emprego e contribui para o aproveitamento dos recursos energéticos nacionais.
Segundo revelou, alguns empresários chegam mesmo a encarar o gás natural como uma vantagem competitiva para os seus negócios. “Há pequenos empresários que consideram o gás natural como sendo o seu segredo de negócio, porque lhes proporciona uma vantagem competitiva”, disse.
Investimento continua a ser determinante
Para João das Neves, o gás natural tem potencial para desempenhar um papel importante na transição energética de Moçambique, mas a sua massificação exigirá investimentos avultados.
“O gás natural veio para ficar. Pode fazer diferença na vida dos moçambicanos, mas há necessidade de realizar investimentos muito significativos”, afirmou.
O gestor entende que o sector privado tem feito a sua parte, mas considera que uma maior intervenção do Estado poderá acelerar o processo através de políticas públicas e incentivos estruturantes.
“O Estado pode mobilizar recursos e criar sinergias para expandir esta solução à escala nacional, não apenas numa lógica de retorno financeiro, mas como instrumento de desenvolvimento económico”, defendeu.
No final da entrevista, João das Neves apelou aos proprietários de viaturas para aderirem à conversão para gás natural, assegurando que o investimento inicial é compensado pela poupança obtida com a utilização do combustível.
“O desafio é não adiar esta decisão. Muitas pessoas pensam que a conversão exige um investimento muito elevado, mas a poupança gerada pelo próprio gás ajuda a pagar esse custo”, concluiu.




