Depois da “prova oral”, ministros “encomendam” intervenções favoráveis
Depois de anos sem realizar uma reunião nacional de quadros, a Frelimo prepara um encontro que deverá juntar pouco mais de três mil participantes, num contexto marcado por fortes tensões internas, problemas acumulados no partido e no aparelho do Estado. Entretanto, informações na posse do Dossiers & Factos indicam que alguns ministros estarão a procurar influenciar as intervenções dos delegados, numa tentativa de garantir avaliações favoráveis aos respectivos sectores, o que poderá transformar a reunião, que está a exigir grandes investimentos, numa espécie de exercício controlado, distante dos problemas reais que afectam o partido e o País.
Texto: Dossiers & Factos
Com a aprovação, pelo Comité Central, da data e do local da reunião, a direcção central do partido desencadeou uma operação de mobilização de recursos junto do empresariado, membros e simpatizantes, bem como de instituições que, tradicionalmente, funcionam como “saco azul”.
Uma das grandes empresas do grupo A, sediada na região centro do País, terá contribuído com milhões de meticais para a organização do local onde decorrerá a reunião.
A cerca de três meses do encontro, também os deputados da Assembleia da República pertencentes à Bancada Parlamentar da Frelimo foram “intimados” a contribuir com cerca de 20 mil meticais cada. Segundo fontes, o valor foi canalizado para o nível central do partido, não estando incluídas nessa contribuição as verbas que deveriam ser destinadas aos Comités Provinciais.
Frelimo paga passagens aéreas para todos os participante
Dossiers & Factos sabe que os delegados da cidade e província de Maputo foram expressamente orientados pelo secretário-geral do partido, numa reunião realizada na Escola Central da Frelimo, a não viajarem nas suas próprias viaturas para Chimoio, nem a suportarem directamente os custos das passagens aéreas.
Segundo as mesmas fontes, todos os participantes e convidados terão as passagens aéreas e o alojamento custeados pelo partido.
A demora na comunicação desta orientação terá, entretanto, criado dificuldades. Vários delegados já tinham reservado e pago hospedagem em unidades hoteleiras, estâncias e residências particulares na cidade de Chimoio, quando receberam a indicação de que o partido assumiria directamente o alojamento.
Perante o cenário, a direcção terá procurado negociar com proprietários de unidades hoteleiras e outros espaços de hospedagem, de modo a reorganizar as reservas e concentrar os participantes em locais previamente definidos.
Fontes entendem que, para além da questão logística, a medida permite à direcção partidária ter maior controlo sobre a localização dos delegados e sobre a dinâmica do encontro.
Estarão as chefias sossegadas com esta reunião?
O ambiente nas hostes da FRELIMO é descrito como tenso. A demora na realização do encontro, a acumulação de problemas a vários níveis, os resultados da actual governação, que ainda não são considerados totalmente convincentes por alguns sectores, o funcionamento das autarquias e a própria dinâmica dos órgãos centrais do partido são apontados como factores que alimentam a expectativa e o nervosismo.
Ao que tudo indica, a direcção do Secretariado do partido estará atenta ao ambiente que antecede a reunião. Uma das estratégias adoptadas terá sido a indicação de dirigentes de diferentes instituições e órgãos como delegados, aumentando o peso destes em relação aos representantes eleitos directamente na base.
Esta foi, segundo fontes, uma das primeiras artimanhas destinadas a garantir maior previsibilidade na composição do encontro. A par disso, estará em curso um trabalho de preparação e orientação dos participantes sobre as matérias a abordar e a forma como deverão ser apresentadas.
Controlar pouco mais de três mil delegados não será, contudo, tarefa simples, sobretudo num momento em que existe consciência, dentro do partido, de que a reunião poderá servir de espaço para manifestação de descontentamento acumulado.
Membros do Governo também não dormem
Desde a chamada para a reunião que ficou conhecida como “prova oral”, realizada na casa do SISE, em Maluana, vários membros do Governo estarão preocupados com a avaliação que poderão receber durante o encontro. Fontes do Dossiers & Factos indicam que alguns ministros terão desenhado estratégias próprias para procurar garantir que as intervenções dos delegados sobre os respectivos sectores sejam positivas.
A estratégia passará, em alguns casos, pela aproximação a delegados considerados influentes, aos quais estarão a ser transmitidas orientações sobre matérias que deverão ser abordadas durante as intervenções.
O receio é que parte das intervenções seja, assim, previamente “encomendada”, em vez de resultar de uma avaliação espontânea da situação interna do partido, das comunidades e dos sectores governamentais.
Caso isso aconteça em escala significativa, a reunião poderá deixar de cumprir uma das suas principais funções: permitir que a liderança da Frelimo conheça, sem filtros, as preocupações dos seus quadros e das bases.
É neste contexto que alguns delegados defendem que o presidente do partido e os demais órgãos com legitimidade devem estar atentos a eventuais tentativas de condicionamento das intervenções. Caso contrário, depois de tantos anos de espera, a montanha poderá acabar por parir um rato




