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RECONHECE O EMPRESÁRIO: “Quanto maiores os desafios, maiores são as oportunidades”

– “Grandes projectos não bastam para desenvolver a economia nacional”, alerta Emerson Garrin

O mercado moçambicano enfrenta dificuldades no acesso ao financiamento, às divisas e à organização empresarial, mas, para Emerson Garrine, director executivo da Perfection Holdings, esses mesmos constrangimentos podem representar oportunidades para empresas capazes de identificar necessidades e apresentar soluções ajustadas à realidade nacional.

Texto: Milton Zunguze

Em entrevista ao Dossier Económico, Garrine considera que Moçambique continua a apresentar um elevado potencial económico precisamente por vários dos seus sectores ainda não estarem totalmente consolidados. Na sua perspectiva, ao contrário dos mercados mais maduros, onde a concorrência e as barreiras à entrada são maiores, o País ainda oferece espaço para a criação e expansão de negócios.

“O mercado moçambicano tem uma coisa muito interessante: tem muitos desafios, mas é um mercado onde também há muitas oportunidades”, afirmou, defendendo que “onde há grandes desafios é onde há grandes oportunidades”.

O empresário entende, contudo, que transformar dificuldades em oportunidades exige empresas mais preparadas e profissionalizadas. Entre os principais constrangimentos identifica o acesso ao financiamento, a disponibilidade de divisas e a actual conjuntura económica, factores que condicionam a capacidade das empresas de crescer, investir e responder às oportunidades que surgem.

Crédito e organização empresarial

Na avaliação de Garrine, os obstáculos ao crescimento empresarial não estão apenas relacionados com a disponibilidade de recursos financeiros. Há também fragilidades internas que limitam a capacidade de muitas empresas de responder às exigências do mercado.

O acesso ao crédito continua a ser um dos principais desafios, sobretudo porque alguns dos requisitos impostos pelas instituições financeiras nem sempre estão ajustados à realidade das empresas moçambicanas, muitas das quais mantêm estruturas familiares e níveis de organização reduzidos.

Mas, segundo o empresário, existe igualmente uma responsabilidade do lado das próprias empresas. Muitas precisam de melhorar a sua organização, profissionalizar processos e criar estruturas capazes de demonstrar maior capacidade de gestão.

“As próprias empresas também têm o desafio de crescer e se organizarem melhor, porque o que tem acontecido é que muitas empresas não estão muito bem organizadas”, observou.

Para Garrine, não basta exigir melhores condições de financiamento ou um ambiente de negócios mais favorável. As empresas precisam igualmente criar condições internas para responder às oportunidades que o mercado oferece.

É neste contexto que considera Moçambique um dos países com maior potencial económico, embora defenda que esse potencial precisa de ser convertido em resultados concretos.

“É um País que, para mim, é um dos melhores em termos de potencial. Agora é preciso transformar esse potencial em dados, em factos, em coisas que realmente vão contribuir para o desenvolvimento”, afirmou.

Prestação de contas ainda é desafio

Outro aspecto apontado pelo director executivo da Perfection Holdings é a accountability e a prestação de contas dentro das empresas. Na sua leitura, muitos empresários ainda têm dificuldade em separar a figura do proprietário da própria empresa, situação que pode dificultar a criação de mecanismos de controlo, transparência e responsabilização.

Para o gestor, essa mentalidade precisa de mudar à medida que as empresas crescem e procuram aceder a estruturas de financiamento mais sofisticadas, investidores ou ao mercado de capitais.

“Tudo começa com a mentalidade, a literacia certa, o momento certo”, defendeu, Garrine reconhece que alguns requisitos impostos às empresas podem ser considerados exigentes, mas sustenta que o sector privado também precisa de acompanhar a evolução do mercado.

A formalização, o pagamento de impostos, a prestação de contas e a organização administrativa, que anteriormente poderiam ser vistos apenas como obrigações, devem, na sua perspectiva, ser encarados como instrumentos fundamentais para o crescimento e a internacionalização das empresas.

Grandes projectos não bastam

Apesar de reconhecer a importância dos grandes investimentos em sectores estratégicos, Garrine considera que Moçambique não poderá construir uma economia inclusiva apostando exclusivamente em megaprojectos.

Grandes projectos têm capacidade para mobilizar capital, gerar receitas públicas e captar divisas. Contudo, muitos não são intensivos em mãode-obra e, por isso, podem não gerar directamente empregos em escala proporcional ao volume de investimento.

É neste ponto que o empresário destaca o chamado efeito spillover, ou efeito de transbordamento, através do qual pequenas e médias empresas podem beneficiar da dinâmica criada pelos grandes investimentos.

Um projecto de petróleo e gás, por exemplo, pode gerar recursos em grande escala, mas o verdadeiro impacto sobre a economia local dependerá da capacidade de outros sectores aproveitarem essa dinâmica.

Na sua perspectiva, à volta de grandes projectos podem desenvolverse actividades como turismo, agricultura, comércio e prestação de serviços, sectores que considera terem maior capacidade de absorção de mão-de-obra e de criação de uma base económica local mais diversificada.

Contudo, a integração das PMEs nas cadeias de valor dependerá da sua capacidade de elevar os níveis de organização. Contabilidade estruturada, contratos, certificações internacionais e cumprimento de padrões são, segundo Garrine, elementos fundamentais para que as empresas nacionais possam disputar oportunidades e integrar cadeias de fornecimento de maior dimensão.

Perfection Holdings aposta no apoio às PMEs

Sobre a situação da Perfection Holdings, Garrine considera que a empresa atravessa uma fase positiva, embora ainda esteja num processo de crescimento.

“Gozamos de boa saúde”, afirmou, ressalvando que, como qualquer negócio, existe sempre a necessidade de melhorar o desempenho financeiro e operacional.

A empresa actua no chamado ecossistema empresarial, prestando serviços que muitas pequenas e médias empresas não conseguem manter internamente devido às limitações financeiras ou à reduzida dimensão das suas estruturas.

Uma PME pode ter um contabilista, um gestor ou mesmo apoio jurídico, mas dificilmente terá capacidade financeira para manter departamentos especializados em áreas como marketing, desenvolvimento de negócios ou estratégia.

É nesta lacuna que a Perfection Holdings procura intervir, através de um modelo de business support destinado a apoiar as empresas no crescimento e na profissionalização.

Garrine identifica ainda situações em que empresas desenvolvem actividade comercial, geram receitas e têm clientes, mas não possuem claramente definido o seu modelo de negócio, uma estratégia de crescimento ou um plano estruturado para os próximos anos.

É nesse domínio que entra o business development, através do qual a empresa procura ajudar os empresários a compreender melhor os seus negócios, estruturar estratégias e identificar caminhos para o crescimento.

Outra componente é o marketing, área que, segundo o gestor, ainda é frequentemente confundida com publicidade por muitas empresas moçambicanas.

“É preciso que o marketing esteja alinhado com outros elementos, com os outros departamentos, com a capacidade de oferta”, explicou.

Para Garrine, a verdadeira medida do sucesso empresarial não deve limitar-se aos resultados financeiros. Deve incluir também a capacidade de crescer, criar empregos e contribuir de forma mais significativa para o desenvolvimento de Moçambique

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