O Fundo de Energia (FUNAE) identificou problemas no funcionamento de postos de abastecimento de combustíveis e numa central eléctrica durante uma visita de trabalho de três dias à província de Cabo Delgado. A equipa, liderada pelo presidente do Conselho de Administração (PCA), Mety Gondola, percorreu os distritos de Mocímboa da Praia, Palma, Balama e Mecúfi, com o objectivo de avaliar o estado das infra-estruturas sob responsabilidade da instituição.
Texto e imagem: Hélio de Carlos
Depois de anos marcados por ataques armados, ciclones e destruição de infra-estruturas, a retoma da vida das comunidades continua a colocar pressão sobre a capacidade de resposta dos serviços.
Em Palma, um dos três postos de abastecimento de combustíveis existentes no distrito está encerrado desde 2021, na sequência do ataque armado à vila. Com a destruição da infra-estrutura, o distrito ficou com apenas dois postos em funcionamento, que enfrentam dificuldades para responder à procura.
Segundo Celso Nhumaio, director do Serviço Distrital de Planeamento e Infra-estruturas de Palma, o regresso da população aumentou a necessidade de combustíveis, “Hoje estamos com 123.909 habitantes, tendo em conta que a população já retornou”, explicou.
O responsável acrescentou que, antes do encerramento do posto, cada bomba fornecia entre 40 mil e 45 mil litros por semana e com apenas duas infra-estruturas operacionais, a capacidade de abastecimento tornou-se insuficiente.
“Com duas, são 90 mil. Com a terceira, vamos para 120, 130 a 150 mil litros por semana, quase 600 mil litros por mês”, afirmou, reafirmando que a reabilitação do posto já está em curso, com um prazo de 20 dias estabelecido para o empreiteiro.
“A mais-valia não é só para viaturas. Temos embarcações que precisam de combustível, empresas que prestam serviços aos megaprojectos, jovens que fazem táxi de mota para se deslocarem. Sem combustível, a economia não anda”, declarou.
Mocímboa da Praia: gasolina a 300 meticais no mercado informal
Em Mocímboa da Praia, a situação continua difícil, desde que o posto da FUNAE foi queimado durante a insurgência; a vila depende de uma única bomba operacional, cenário que a instituição pretende alterar até Dezembro deste ano, com a reabertura da infra-estrutura, actualmente em manutenção.
Mpoe Momadi, residente na vila, descreve as dificuldades provocadas pela escassez de combustível e pelo aumento dos preços no mercado informal.
“Desde que queimaram as bombas, ficou só uma bomba na vila toda. Chega gasolina hoje, amanhã já acabou. Na bomba acaba e no bairro encontra um litro a 300 meticais. Nós que não temos transporte próprio, quando chamamos um taxista, ele aplica valor muito maior porque o combustível está em escassez”, relatou.
A falta de combustível também condiciona a circulação de viaturas e encarece as deslocações para outros pontos da província.
“Muitos carros não circulavam. Para alguém se deslocar daqui a Pemba precisava de muito arranjo, de ter um valor maior”, acrescentou.
Questionado sobre o que a comunidade mais deseja, o entrevistado foi directo, “Reabertura da bomba do FUNAE para que a nossa vida melhore ainda mais”.
Por sua vez, Abdala Moussa Ismaele, transportador por motorizada da zona de Fungula, em Palma, também descreveu as dificuldades para conseguir combustível: “Não conseguimos comprar o que queremos e, para comprar combustível, temos que caminhar de duas a três horas até à única bomba disponível e, automaticamente, o custo de vida é maior”, afirmou, apelando à intervenção urgente da FUNAE.

Metuge, Mecúfi e Metoro: entre postos operacionais e infra-estruturas degradadas
Durante a visita, a directora da Divisão de Combustíveis da FUNAE, Loide Ngondela, manifestou satisfação com o funcionamento do posto de abastecimento de Metuge, destacando a sua conservação e a capacidade de resposta dos equipamentos.
“Em particular, este posto deixa-nos bastante satisfeitos, está a funcionar em pleno, com boa rotatividade, máquinas a responder. A conservação do posto também está boa”, afirmou.
Apesar da avaliação positiva, a responsável apontou limitações na loja de conveniência, considerando que esta deveria disponibilizar mais produtos úteis aos automobilistas, “Achamos que, se o utente pode abastecer, também pode ter produtos úteis, lubrificantes para apoiar os automobilistas”, observou.

Em Mecúfi, o cenário é diferente. O posto de abastecimento foi afectado pelo ciclone de 2024 e continua a apresentar problemas que exigem uma intervenção de reabilitação.
Segundo Mety Gôndola, os danos afectaram os equipamentos tecnológicos, o sistema de água e a componente eléctrica, “A situação é complicada. O pacote tecnológico sofreu bastante, a bomba abastece, mas não permite leitura digital, não permite controlo de eficiência. O sistema de água está inexistente; a parte eléctrica também. A bomba precisa de reestruturação”, explicou.
O PCA da FUNAE manifestou igualmente preocupação com o facto de viaturas do Governo distrital se deslocarem a Pemba para abastecer, em vez de utilizarem o posto local.
“Não faz sentido termos um investimento desta natureza e as viaturas do distrito saírem para ir abastecer na cidade de Pemba. Os gestores têm custos fixos. Estão a lutar no prejuízo. Se não houver garantia de que o distrito vai priorizar este abastecimento, não vamos fazer a reabilitação. Há muitos outros sítios que precisam de investimentos”, advertiu.
Gôndola abordou ainda as dificuldades relacionadas com os custos de transporte de combustíveis para Mecúfi, defendendo que a aplicação de preços mais elevados na região poderia agravar as dificuldades da população.
“O preço que se vende aqui é o mesmo que se vende em Maputo, mas o custo da logística é muito mais complicado. Se aumentarmos o preço aqui, onde está o poder de compra da população de Mecúfi? Vamos estar numa zona de injustiça social”, afirmou.
Em Metoro, no distrito de Ancuabe, o problema identificado é a elevada procura, que ultrapassa a capacidade de resposta do único posto de abastecimento.
“É um posto com grande potencial. A procura é elevada e o posto não consegue responder. Em menos de dois ou três dias, o stock acaba”, explicou o PCA da FUNAE.
O chefe do posto administrativo de Metoro, Alim Alcene, afirmou que a localização estratégica da região, por onde circulam camiões provenientes da Tanzânia e do Malawi, contribui para o aumento da procura. O responsável referiu igualmente a presença de cerca de 300 mil habitantes, considerando a população local e os deslocados de outros distritos.
“Precisamos de mais duas ou três bombas. A necessidade é básica”, defendeu.
A infra-estrutura já foi alvo de assaltos armados, que culminaram na morte de um funcionário, situação que também preocupa a FUNAE.
Balama: central eléctrica parada desde 2023
O momento mais crítico da visita foi registado em Mpaca, na localidade de Balama, onde uma central eléctrica entrou em funcionamento em 2021, começou a apresentar sinais de problemas em 2022 e deixou de funcionar em 2023, uma situação classificada como “inaceitável” pelo PCA da FUNAE, e a interrupção do fornecimento de energia prejudicou os investimentos realizados pela população.
“É grave que coloquemos energia e depois pare de funcionar. As pessoas compram contadores, compram comida, fazem investimento em mercearias, ficam sem energia e perdem tudo o que investiram. Por culpa nossa. Porque fizemos o trabalho não em condições aceitáveis. Isso é uma brincadeira de mau gosto”, declarou.

Segundo Gôndola, foi lançado um concurso para a reabilitação da central e seleccionado um empreiteiro, mas os trabalhos não arrancaram, a empresa terá alegado dificuldades na aquisição de equipamentos e na obtenção de divisas, uma justificada rejeitada pelo dirigente, defendendo que os problemas deveriam ter sido comunicados à instituição para permitir a procura de soluções.
“Se tivessem dificuldades, teriam se aproximado e nós poderíamos trabalhar com as instituições. Vamos responsabilizar as pessoas que estão a fazer este tipo de brincadeira”, garantiu.
Como medida de emergência, a FUNAE anunciou que iria repor o fornecimento de energia através de um gerador a gasóleo, no prazo de 48 horas, com disponibilidade limitada a quatro horas por dia, enquanto se aguarda pela solução definitiva.
O administrador do distrito de Balama, Paulo Silvestre Pati, agradeceu a visita da equipa, realizada numa zona de risco, e recordou as expectativas criadas pela chegada da electricidade a Mpaca.
“Quando a rede chegou a Mpaca, gerou grande expectativa de desenvolvimento. Tínhamos expectativa de tornar isto um polo, já temos água disponível. Alguém que já tinha um congelador, negócio de criação de frangos, pequenas mercearias, ver este ganho recuar é um retrocesso”, afirmou.
A central deveria servir entre 450 e 500 famílias. Com a expansão prevista, a cobertura poderá alcançar entre 800 e 1.000 famílias, numa região com cerca de 10 mil habitantes.
O chefe do posto administrativo de Mavala, Alima Ussene, confirmou que a paralisação da central afectou os projectos económicos desenvolvidos pelos jovens, incluindo a criação de frangos e a conservação de pescado proveniente da barragem local.
A FUNAE prevê que o fornecimento de energia seja restabelecido definitivamente em Mpaca nos próximos 12 meses.




