EnglishPortuguese

Putin “recruta” África para fintar Ocidente



O Presidente da Federação da Rússia, Vladimir Putin, abriu as portas do Kremlin a 48 países africanos e fez uma proposta difícil de ignorar: um sistema financeiro alternativo ao ocidental, energia, cereais e tecnologia em troca de uma parceria estratégica que desafia abertamente a ordem liderada pelos EUA e pela Europa. Moçambique, representado pelo Presidente Daniel Chapo, sentou-se à mesa – e levou para casa um memorando rodoviário e a promessa de uma rota marítima directa.

Texto: Amad Canda

No centro da III Cimeira RússiaÁfrica, Putin colocou todas as fichas numa ideia que Bruxelas e Washington detestam: bancos russos e africanos a abrirem agências nos mercados uns dos outros, pagamentos em moedas nacionais e o recurso ao sistema de mensagens financeiras do Banco da Rússia e ao sistema de pagamentos pan-africano, contornando o dólar, o euro e, com eles, o controlo de Washington e Bruxelas.

O comércio Rússia-África já saltou de 18 para 27 mil milhões de dólares num ano, e Putin quer pelo menos duplicá-lo para 50 mil milhões. “Nem as restrições sem precedentes contra a Rússia nem a pressão ocidental sobre os parceiros africanos conseguiram impedir o desenvolvimento das relações económicas”, atirou, agradecendo a “posição firme e de princípios” dos amigos africanos.

No seu discurso, Putin foi mais longe, acusando o Ocidente de resistir a um mundo multipolar por “pensamento colonial”, de ficar “fabulosamente rico à custa dos outros” e de tentar empurrar África de volta para uma “escravidão da dívida” através de empréstimos predatórios. O remédio? Reformar o FMI e o Banco Mundial e dar mais voz a África nas decisões.

Uma cimeira de acordos, não só de discursos

Longe de ser apenas retórica, a cimeira produziu resultados concretos. Moçambique e a Rússia assinaram um memorando de cooperação rodoviária e discutiram uma possível rota directa de navegação, dois dos cerca de 33 documentos intergovernamentais e contratos comerciais previstos no pacote final.

A Rosatom e o Ministério da Energia do Togo assinaram um memorando sobre cooperação nuclear, que pode ncluir centrais nucleares flutuantes para fornecer electricidade ao país da África Ocidental.

Rússia e Tanzânia lançaram um programa espacial conjunto, com Moscovo a colocar em órbita o primeiro satélite de teledetecção tanzaniano. Foi ainda redigida uma declaração conjunta específica sobre Inteligência Artificial para uso civil, um dos pontos mais inovadores desta edição, e os líderes comprometeram-se a adoptar um Plano de Acção Rússia-África para 2027-2029 no encerramento da cimeira.

Cereais, energia e a “batalha” pela soberania tecnológica

 Putin apresentou-se como o parceiro que alimenta o continente: 13 milhões de toneladas de produtos agrícolas exportados para África nos primeiros nove meses de 2026, mais de 40 países a receber cereais e fertilizantes russos, e mais de 30 projectos energéticos em 16 países.

A mensagem é clara. Moscovo não quer apenas vender, quer industrializar, processar localmente e transferir tecnologia, numa altura em que os líderes africanos exigem precisamente isso.

O presidente burundês e da União Africana, Evariste Ndayishimiye, resumiu o sentimento do continente: “Não queremos permanecer apenas exportadores de recursos naturais e depois importar produtos acabados.” E o egípcio al-Sisi reforçou: “A voz de África deve ser ouvida e deve exercer influência na tomada de decisões internacionais.”

A cartada da segurança e a formação de elites

Moscovo lembrou ainda que mantém acordos de cooperação técnico militar com 45 nações africanas, posicionando-se como fornecedor de segurança e estabilidade – um tema controverso, sobretudo no Sahel, mas que ressoa em capitais que se sentem abandonadas pelo Ocidente.

Ao mesmo tempo, cerca de 40 mil estudantes africanos formam-se em universidades russas, com as bolsas a quase triplicarem desde 2020, e Putin propôs uma União Juvenil Rússia-África e mais correspondentes africanos em Moscovo.

O Ocidente fora do jogo?

A leitura que sai de Moscovo é a de uma potência que, isolada pelas sanções, encontrou em África o seu terreno de recrutamento estratégico – e que o faz com uma oferta que o Ocidente dificilmente iguala: sem condições políticas, sem reformas impostas e sem o escrutínio das instituições financeiras de Bretton Woods.

Se o plano de 2027-2029 avançar, Putin pode ter garantido não apenas mercados, mas aliados numa nova ordem mundial que diz querer construir. E Maputo, com o seu memorando rodoviário e a promessa de uma rota marítima directa, já está sentado nessa mesa

Gostou? Partihe!

Facebook
Twitter
Linkdin
Pinterest
Search

Sobre nós

O Jornal Dossiers & Factos é um semanário que aborda, com rigor e responsabilidade, temáticas ligadas à Política, Economia, Sociedade, Desporto, Cultura, entre outras. Com 10 anos de existência, Dossiers & Factos conquistou o seu lugar no topo das melhores publicações do país, o que é atestado pela sua crescente legião de leitores.

Notícias Recentes

Edital

Siga-nos

Fale Connosco