EnglishPortuguese

Renamo: de expulsão em expulsão até à sepultura final

A Renamo decidiu, na última semana, expulsar António Muchanga das suas fileiras, invocando razões de ordem disciplinar. O afastamento do actual membro da Assembleia Provincial de Maputo, que, entretanto, já prometeu recorrer à justiça, serviu de pretexto para Dossiers & Factos rebobinar a fita e recordar outras purgas de figuras com enorme capital político naquele partido. De Raúl Domingos a Muchanga, cada expulsão do género soa como uma pá que abre a cova em que o “cadáver político” do partido se vai “auto-sepultando”.

Texto: Amad Canda

Em 2024, na azáfama da campanha eleitoral rumo às eleições gerais – presidenciais, legislativas e das Assembleias Provinciais -, um cidadão anónimo cunhou a frase “Renamo não vai existir na Moçambique”. Muito por conta do defeito gramatical que apresenta, a frase rapidamente se celebrizou nas redes sociais, tornando-se um dos memes mais usados no contexto da política nacional.

Quando o processo eleitoral em alusão chegou ao fim e se confirmou a estrondosa derrota da “perdiz”, a expressão deixou de ser vista apenas como uma piada, passando a ser elevada ao patamar de profecia. Se é certo que a mesma parece exagerada, até porque um partido com grande implantação social em todo o País dificilmente desapareceria, é facto que aquela formação política tem estado em queda, muito por conta dos tiros que tem dado nos próprios pés.

A recente decisão do Conselho Nacional de expulsar António Muchanga enquadra-se nesse registo. Com mais de três décadas de filiação, Muchanga é um dos militantes mais experientes da Renamo, tendo desempenhado diferentes funções de relevo. A título de exemplo, foi deputado da Assembleia da República (AR) durante três mandatos – o que perfaz 15 anos de experiência parlamentar -, conselheiro de Estado e porta-voz de Afonso Dhlakama, o histórico líder do partido, falecido em 2018.

A par deste currículo, Muchanga é uma figura popular, particularmente na zona sul do País, sendo disso prova as votações expressivas nas eleições autárquicas de 2018 e 2023, no município da Matola, e nas eleições para governador de 2019 e 2024, na província de Maputo. Em alguns destes pleitos, o político chegou a reivindicar vitória com base na contagem paralela, tendo-o feito de forma mais enfática em 2023.

Pelo seu percurso político e capacidade de mobilização, António Muchanga é visto como uma figura capaz de infligir danos à Renamo, sobretudo na eventualidade de liderar uma lista de qualquer outro partido político, hipótese que, nas suas palavras, não está afastada.

Um partido especialista em auto-sabotagem

Nos próximos tempos, tudo indica que a irrelevância política da Renamo estará associada ao seu actual presidente, Ossufo Momade. No entanto, a história regista que a apetência pela autodestruição não é de hoje, remontando aos tempos da liderança de Afonso Dhlakama. Foi com Dhlakama ao leme que, em 2000, a “perdiz” expulsou o então número dois do partido, Raúl Domingos.

Negociador do histórico Acordo Geral de Paz de 1992, Domingos foi acusado de traição, em conluio com a Frelimo, alegadamente em troca de acções na empresa Águas de Moçambique, que, à época, segundo o jornal português Público, geria o abastecimento de água nas cinco principais cidades do País.

Escorraçado da Renamo, Raúl Domingos, actualmente embaixador de Moçambique no Vaticano, fundou o Partido para a Paz, Democracia e Desenvolvimento (PDD), pelo qual se candidatou à Presidência da República em 2024. Os 2,7% de votos que obteve não permitem afirmar que tenha causado grandes prejuízos à Renamo, pelo menos numa perspectiva puramente eleitoral.

Ainda assim, a sua saída forçada teve o condão de enfraquecer a capacidade negocial e técnica do partido na AR e de gerar desconfiança entre os quadros intelectuais que apoiavam a ala moderada do antigo movimento de guerrilha, para além de ter aberto um precedente que, oito anos mais tarde, teria consequências palpáveis para a Renamo.

Expulsão de Daviz Simango: o segundo auto-golpe

Em 2008, foi a vez de Daviz Simango, também visto como potencial sucessor de Afonso Dhlakama, ser expulso da Renamo. Depois de um ciclo de gestão autárquica (2003-2008) elogiado dentro e fora do País, o partido decidiu que Simango não devia recandidatar-se ao cargo de edil da Beira, tendo apostado em Manuel Pereira.

Inconformado, o filho de Uria Simango, co-fundador da Frelimo, avançou com uma candidatura independente, que acabaria por ser usada como principal argumento para a sua expulsão.

Ao contrário do episódio de Raúl Domingos, a expulsão de Daviz Simango teve efeitos imediatos e catastróficos para a “perdiz”. Para além de ter sido reeleito na segunda maior cidade do País, Simango acabou por quebrar o bipartidarismo em Moçambique, quando o seu Movimento Democrático de Moçambique (MDM) elegeu oito deputados para a Assembleia da República, enfraquecendo a Renamo.

Efectivamente, as análises de especialistas convergem na ideia de que Daviz Simango atraiu para si parte significativa da base de apoio da Renamo, incluindo figuras de proa como Geraldo Carvalho, que entretanto já regressou à casa, e Ismael Mussa, actualmente afastado da política partidária.

Ruptura com Venâncio Mondlane: mais um auto-golo

Embora não tenha resultado propriamente de um processo de expulsão, a saída de Venâncio Mondlane, em Junho de 2024, configura mais um auto-golo na história política da Renamo, por sinal, com efeitos particularmente destrutivos.

Ignorando as vozes de parte significativa da sociedade, que apelavam a que a Renamo indicasse Venâncio Mondlane como candidato presidencial, a cúpula liderada por Ossufo Momade hostilizou o jovem político e até o impediu de participar no congresso que reelegeu Momade, em Alto Molócuè, na província da Zambézia.

Perante esta situação, Venâncio Mondlane entendeu que já não tinha espaço na Renamo, tendo apresentado a sua carta de renúncia. De seguida, formalizou a candidatura presidencial, acabando por se aliar ao Podemos, depois de ter sido inviabilizada a candidatura da CAD, o primeiro movimento a que se tinha associado. Os resultados eleitorais confirmaram as previsões de muitos analistas.

Segundo os dados oficiais, o actual presidente do Anamola foi o segundo candidato mais votado e ajudou o até então pouco conhecido Podemos a eleger 43 deputados para a Assembleia da República, formando a segunda maior bancada parlamentar, apenas atrás da Frelimo. É caso para dizer que, se Daviz Simango teve o mérito de quebrar o bipartidarismo (Frelimo-Renamo) e abrir espaço para uma terceira via, Mondlane transformou a “perdiz” na terceira via.

Obra do sistema?

À primeira vista, os golpes acima arrolados parecem autoinfligidos, mas há sectores que defendem que terão sido idealizados pelo “sistema”, numa referência à Frelimo e ao Estado, com vista a enfraquecer a oposição através da “neutralização” de figuras que possam representar ameaça.

Nesse contexto, por exemplo, é atribuída a forças ligadas ao referido sistema a alegada oferta de acções a Raúl Domingos na Águas de Moçambique, uma sociedade que também contava com a participação de membros da elite frelimista. O objectivo seria suscitar a desconfiança de Afonso Dhlakama e, assim, desencadear uma crise interna. A mesma estratégia terá, alegadamente, sido usada com Daviz Simango, que, em vida, também conciliava a política com os negócios.

Já em relação a Venâncio Mondlane, os mesmos sectores de análise argumentam que não interessava aos actuais detentores do poder que este concorresse às eleições presidenciais pela Renamo, um partido que, nos últimos anos, deixou de constituir um incómodo. Aliás, informações apuradas por Dossiers & Factos indicam que os Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE) tiveram um papel relevante na forma como foi conduzido o congresso de Alto Molócuè.

Gostou? Partihe!

Facebook
Twitter
Linkdin
Pinterest
Search

Sobre nós

O Jornal Dossiers & Factos é um semanário que aborda, com rigor e responsabilidade, temáticas ligadas à Política, Economia, Sociedade, Desporto, Cultura, entre outras. Com 10 anos de existência, Dossiers & Factos conquistou o seu lugar no topo das melhores publicações do país, o que é atestado pela sua crescente legião de leitores.

Notícias Recentes

Edital

Siga-nos

Fale Connosco