– “Estamos a formar mais estrelas do que profissionais”
– “Foi desafiante lidar com a frontalidade de Ponguane”
– “Não me arrependo de ter entrado na política”
“O chefe de redacção da Televisão de Moçambique (TVM) carregava o País nas costas”, afirma Emília Moiane, actual directora do Gabinete de Informação (GABINFO), em entrevista ao Dossiers & Factos (D&F). A primeira mulher a fazer jornalismo desportivo na TVM revela que o cargo de maior desafio que exerceu naquela estação pública foi o de chefe de redacção, função que a obrigava a um difícil equilíbrio entre a verdade e a estabilidade do Governo, muitas vezes perante a pressão e frontalidade de Simião Ponguane. Faz crítica relativamente ao estado actual do jornalismo e lamenta que se esteja a formar “estrelas” em vez de profissionais, e defende a imposição de taxas no processo de registo de órgãos de comunicação social – uma medida que, segundo ela, também visa reduzir o número excessivo de televisões no País, pois “não é normal haver 300 televisões em Moçambique”.
Texto: Serôdio Towo
Fotos: Arton Macie
D&F: Como Emília Moiane se torna jornalista?
Emília Moiane (EM): Este bicho do jornalismo é de casa. Eu venho de uma família de jornalistas e cresci a admirar o meu tio (Salomão Moyane), que foi uma referência para mim. Com os meus irmãos, sempre falámos de jornalismo em casa, até que, mais tarde, entrei para a TVM, tendo como referência o meu tio e o meu irmão Sérgio Marcos, mas igualmente as convivências com outros jornalistas. Sou também antiga jogadora de andebol. Nos anos 80, esta modalidade era uma das principais em Moçambique e tínhamos acompanhamento de jornalistas. Então, aquela presença de jornalistas nos campos, que nos entrevistavam no final, e com as referências que tinha desde em casa, criou em mim a vontade de aprender a ser jornalista, e foi o jornalista Alexandre Zandamela com quem conversei e decidi seguir este caminho.
D&F: E foi directamente para a TVM?
EM: Não, comecei no jornal O Campeão. Foi para aí que o Zandamela me convidou. Ele estava a abrir o jornal e convidou-me a participar num concurso. Penso que no jornal só estavam quatro ou cinco jornalistas – o Alexandre Zandamela, o Renato Caldeira, o Jeremias Langa e o César Langa. Na altura, fizemos os exames, que estavam bem concorridos, e fui um dos dois jornalistas que entraram.
“Foi fácil entrar para a TVM”
D&F: Como é que chega a TVM?
EM: Em finais de 1998, Moçambique acolheu o Afrobasket sub-20 e, durante a abertura, o Chavana, na altura chefe de redacção, disse-me que a TVM queria reforçar a sua área desportiva e que, de preferência, queria uma mulher. Na altura, eram poucas as mulheres no jornalismo desportivo. A Rosa Inguane tinha saído para Angola, por isso eu era a única mulher na área desportiva. Foi a partir dessas conversas iniciadas no Afrobasket – em 1999 materializadas num convite – que acabei ingressando na redacção da TVM.
D&F: E como foi a transição do jornal para a TV?
EM: Como sabe, no impresso escrevemos muito, mas na tv a informação deve ser condensada em dois ou três parágrafos. Esse choque de ter muitas palavras na cabeça que depois tinham de ser sintetizadas foi o meu desafio. Contudo, não durou muito porque foi apenas questão de aprender a “comer” palavras e reter o essencial. Não foi tão difícil integrar-me, porque o jornalista do impresso, modéstia à parte, tem muito mais a oferecer do que aquele que nasce na televisão. Os jornalistas de TV têm mais dificuldade em passar para o impresso, enquanto o percurso inverso exige adaptação, mas é feito com mais facilidade.
D&F: Qual foi o momento que marcou a sua carreira, quer bom quer o mau?
EM: O mais alto foi a minha decisão de não me limitar ao jornalismo desportivo, mas passar também para outras áreas, e esse foi o momento da minha saída para Inhambane, quando se decidiu iniciar o projecto de instalação da TV naquela província. Aprendi a fazer gestão no terreno e em simultâneo coberturas de assuntos políticos, embora isso não fosse propriamente uma novidade, porque na TVM, em período eleitoral, toda a gente vai para o terreno. Em 2004, o desporto passou a ser uma parte ínfima da minha agenda. Era mais outras áreas de jornalismo e, acima de tudo, gestão – instalar uma delegação, saber que preciso de um administrativo, integrar equipas locais, etc. Então, penso que o que eu sou hoje é graças a 2004.
D&F: E o momento difícil?
EM: Momentos difíceis são muitos, né? Mas não me marcam tanto porque luto sempre para os superar e ter um momento agradável. Por exemplo, às vezes – e Serôdio sabe disso – o jornalista escreve e a interpretação de cada pessoa é diferente. Há momentos em que fazes uma reportagem e depois sentes que podias ter feito melhor.
D&F: Quando é que toma a decisão de fazer política activa?
EM: Eu penso que todo o ser humano é político. Quando estamos na profissão de jornalista, temos de manter equilíbrio e isenção, mas cada um tem as suas preferências. No meu caso, a minha mãe pertenceu à OMM, estando, portanto, ligada ao partido Frelimo. Eu vivi isso e não tive outras referências que me fizessem pensar numa possibilidade diferente. Quando deixei de fazer activamente o jornalismo, em 2015, achei que era altura de me associar abertamente a uma cor política que já admirava desde em casa. Eu fiz parte do grupo de continuadores que cantava para os dirigentes e os recebia nas reuniões. Portanto, foi assumir o facto de já poder estar integrada no partido, e não me arrependo.
“Eu tinha de equilibrar a verdade com a estabilidade do Governo”
D&F: Na TVM, qual foi o cargo que mais a marcou e o mais desafiador?
EM: O de chefe de redacção – aquele que é o primeiro a chegar e o último a sair, que tem de responder se uma peça passou e não agradou a uns ou a outros, que tem de responder porque é que a equipa não cobriu determinado evento ou chegou tarde. Para mim, esta tarefa foi desafiadora. E sendo a TVM uma TV pública, com sustentação orçamental do Estado, isso desafia ainda mais, porque é a TV em que todos os moçambicanos confiam para lhes dizer a verdade. Acresce ainda o facto de a TVM ter sido a primeira e a privada ter aparecido tempo depois. Nós temos, em algumas regiões, pessoas que não conhecem outras televisões, só conhecem a TVM. Portanto, é como se o chefe de redacção carregasse o país inteiro nas costas. E eu acho que Deus me ajudou e me moldou, porque eu era chefe de redacção do Simião Ponguane, que estava lá às 6h e, nas quintas-feiras, só saía depois do “Quinta à Noite”. Ponguane vivia a TVM, pelo que era impossível ter um chefe de redacção que não encarnasse a forma de trabalhar, marcada pelo profissionalismo de Simião Ponguane. Foi desafiante conhecer a frontalidade dele, sobretudo nos momentos em que tínhamos de pensar: “aqui temos de ver como gerir este assunto”…
D&F: Há relatos de momentos em que se tentava amenizar as palavras para não alarmar as pessoas, mas ele se opunha…
EM: Exactamente. Aquela frontalidade e profissionalismo também me ajudaram a ser uma chefe de redacção com toda a responsabilidade que era necessária, mas, acima de tudo, com a necessidade de corresponder ao profissionalismo que Ponguane oferecia. Tivemos muitos momentos tensos, sobretudo em situações de gestão do Governo. Recordome, na altura, da questão da cesta básica, que foi um dos momentos mais difíceis. Há alturas em que o chefe de redacção e o director de informação se sentam e dizem: “O apresentador do telejornal hoje não vai ser o da escala, deve ser o fulano, para garantirmos que a mensagem que temos de passar chegue aos telespectadores”. E tivemos muitos desses momentos. Quando passei à chefe de redacção, já havia mais abertura no País, mais pessoas a pensar, o que tornava tudo mais desafiante. Houve muitos desafios na TVM. Existia, naquela altura, um canal mais liberal – a STV – que podia dizer tudo, e as pessoas perguntavam: “Se a STV diz, por que é que a TVM não diz?” Então, era preciso fazer esse jogo de gestão e conseguir estar ao nível da expectativa da população, mas também ao nível daquilo que era a estabilidade de quem geria o País.
“Temos de criar profissionais, não estrelas”
D&F: Como é que vê o jornalismo e os seus profissionais hoje, em comparação com os de ontem?
EM: Acho que nós, que devemos passar o testemunho, não estamos a preparar como deve ser os jornalistas mais novos. Quando entrei para o jornal “O Campeão”, durante muito tempo nem para a Beira eu ia cobrir um jogo do campeonato nacional. Fiquei na redacção durante muito tempo, até que os editores sentissem que eu estava realmente pronta. Às vezes, a descarregar áudios, mas aquilo dava tarimba ao profissional. Cheguei à TVM no início de 1999 e não me lembro de, nos primeiros três ou quatro anos, ter sido destacada para uma missão importante, como cobrir um ministro ou o Chefe de Estado. Eu só começo a sair com o Chefe de Estado em 2005. Mas hoje os jovens atingem o estrelato no dia em que entram, e isso tira-lhes a possibilidade de crescer e aprender. A culpa não é deles, somos nós que temos de olhar para isto. Ele entra para a redacção e no dia seguinte já está a apresentar um programa, a moderar debates. Portanto, penso que alguma coisa deve melhorar, no sentido de estarmos a criar profissionais e não estrelas – e estrelas de pés de barro, que não têm a maturidade de que o jornalista precisa. Não podemos dizer que hoje as redes sociais ou as universidades formam… O jornalismo é uma profissão nata, não se aprende, apenas se aperfeiçoa na escola. O jornalista pode ser equiparado a um escritor: ele é nato. Serôdio, a escola e a realidade da redacção são coisas completamente diferentes. Há perguntas que ouvimos nesses programas que poluem o dia-a-dia que o Serôdio, com a experiência e o profissionalismo que tem, não pode fazer. Não é o problema do que dizem. É do como. Onde estão a ética e a deontologia? Onde é que este jovem caminhou para aprender ética e deontologia? O jornalismo tem regras que devem ser respeitadas em Moçambique, na América, na África do Sul, etc. E se nós conseguirmos sair daqui para outros países, vamos ver o rigor profissional, e não se perde porque agora se faz na internet. Portanto, há um debate que precisamos de fazer com as associações, os donos dos órgãos – que também são culpados. Precisamos melhorar para o bem da nossa profissão e do povo.
D&F: Ainda no contexto da profissão, há algum jornalista para quem tira o chapéu?
EM: A minha admiração profissional é por Francisco Júnior. Eu penso que nos próximos 20/30 anos, Moçambique terá Francisco Júnior como elemento de referência. Temos um profissional que podemos dizer que caminha para lá, que é o Brito Simango, mas penso que o Júnior marca o País pela profundidade. Uma notícia do Francisco Júnior não é feita em 10 minutos – ele tem rigor profissional e é uma referência. Olhando um pouco para as mulheres, tenho muita admiração pela Maria Cremilda Massingue. Muito profissional, nada de holofotes. Ouvia-a durante muito tempo na rádio, mas tive a oportunidade de partilhar a mesa de trabalho com ela na televisão. Como mulher-jornalista, é uma referência. Infelizmente, em Moçambique os jornalistas se reformam, mas o Francisco Júnior e a Maria Cremilda Massingue são, para mim, grandes referências.
D&F: Como é que é convidada para trabalhar com o Governo?
EM: Foi no dia 2 de Fevereiro de 2015. O então primeiroministro, Carlos Agostinho do Rosário, liga-me, apresenta-se e convida-me para uma conversa. Falámos sobre como eu me sentia no jornalismo, sobre a campanha e outros temas, Directora do GABINFO preocupada com proliferação de TVs sem sustentabilidade e, no final, ele diz: “Eu quero convidar-te para trabalhar comigo aqui no meu gabinete.” Eu disse-lhe que nunca havia trabalhado fora da TVM, e ele disse-me: “É algo que vais conseguir fazer.” No dia quatro, recebo um telefonema do Gabinete do Primeiro-Ministro, área dos Recursos Humanos, e transmitem-me a informação de que no dia seguinte seria empossada como directora do Gabinete de Informação (GABINFO). Eu fiquei atrapalhada. Na altura, o PCA da TVM era o Jaime Cuambe. Comecei a pensar: “o que é que eu faço?”. A nossa produtora chegou a perguntar: “Oh, Emília, nunca mais sai esse jornal?”. Eu estava toda perdida e fui conversar com ela e ela aconselhou-me a pedir audiência com o PCA. Fui explicar ao PCA e ele dispensou-me e desejou-me sucesso. Então, saí para informar a minha mãe, os meus irmãos e filhos, e só depois comecei a pensar no que era o cargo e lembreime de que o anterior director era o Ezequiel Mavota. Então, no dia seguinte ainda fui à TVM organizar as minhas coisas. Foi lá onde me vesti, partindo depois para a tomada de posse. O Mavota foi muito prestável e ajudou-me a perceber o que era o cargo.
D&F: Qual foi o seu primeiro desafio no GABINFO?
EM: Diria que o primeiro grande embate que tive foi perceber que, para além de ser directora, havia outras instituições pelas quais devia zelar – quatro subordinadas e duas tuteladas. Aí vi o tamanho da instituição.
D&F: Qual foi a lógica da criação de Gabinetes de Comunicação nos ministérios que produzem conteúdos para a imprensa?
EM: Quando recebo chamada de um jornalista a dizer que não consegue obter resposta de um ministério, não consigo ficar parada. E há situações em que os titulares não têm esta proximidade e, por vezes, não avaliam o impacto de dar ou não dar determinada informação. Nós demonstrámos que havia assessores que aconselhavam ministros, mas não as instituições. Mas há necessidade de se saber também o que está a acontecer dentro da instituição. O jornalista deve poder dizer “dê-me informação sobre isto e aquilo” e haver capacidade para lhe fornecer essa informação. Os assessores externos não tinham como entrar na instituição. Apresentámos esta lacuna comunicacional ao chefe de Estado: era grande a falta de gabinetes de comunicação instituídos. Havia sectores em que a chamada área da comunicação era o protocolo. Nós vimos que não, que havia necessidade de serem profissionais da comunicação social. Tínhamos muita gente formada na área, que estaria mais preparada para interagir com jornalistas e outros intervenientes. Na altura, o chefe de Estado tomou a decisão de que, na organização dos ministérios, assim que o mandato se iniciasse, havia necessidade de se criar um gabinete de comunicação. E assim foi feito, pela primeira vez na história da comunicação. Mas o desafio não terminou, porque o profissional da comunicação social, na estrutura do Estado, não tem progressão na carreira; nós estamos a lutar e sentimos que há muita abertura para criarmos, efectivamente, essa carreira. A instalação dos gabinetes também não trouxe tanta paz à gestão, porque alguns sectores entendiam que, já que iríamos instalar um gabinete, teríamos um chefe de departamento autónomo, e não viam a necessidade de um assessor. Isso também matou, de alguma forma, a proximidade entre o titular e a área de comunicação. Mas o sonho é que esse elemento seja tido como estratega de toda a acção do ministério, porque é aí que teremos a possibilidade de difundir mais informações – o nosso problema, neste momento, é como canalizar essa informação. Mas acho que, neste momento, estamos muito mais avançados no sentido de que temos um chefe de Estado que também já passou por uma redacção, é um comunicador. A sensibilidade de quem dirige também ajuda a ultrapassar alguns desafios. Finanças do Estado travam apoio aos órgãos de comunicação
D&F: No passado, havia órgãos do Governo que ajudavam indirectamente a comunicação social, através de anúncios. Por que cortaram isso?
EM: Há limitações financeiras que obrigam a criar novas formas de comunicar. Muitos sectores – incluindo nós, que recebíamos pela assessoria ao Governo e até fazíamos contratos com alguns órgãos – viram essa capacidade reduzir-se e estão a apostar nas redes sociais, entre aumentar a dívida e encontrar alternativas, penso que muitos sectores estão a procurar essas alternativas. Mas dizemos sempre que o tradicional não vai morrer.
D&F: Como viveu a polémica em torno da mudança da legislação atinente à criação de novos órgãos?
EM: Foi e é um dos grandes desafios. A revisão das leis começou em 2006 e, quando chegámos, em 2015, o SNJ manifestou preocupação com um processo activo há mais de dez anos. Por orientação na altura, o GABINFO deveria abraçar esta prioridade. E foi o que fizemos: pegámos nas propostas, fomos verificar, analisámos os artigos e criámos uma equipa de trabalho que reuniu o MISA e o SNJ. Fomos caminhando e, em 2018, as leis foram apresentadas na Assembleia da República. No mandato seguinte, repetimos o processo: criámos equipas, revimos as leis, voltámos ao Governo para aprovação. As leis depositadas em 2018 são diferentes das do mandato 2020-2024, porque se pensou no regulador da comunicação social – a grande novidade do pacote de 2020-2024. Em 2025, começou um novo mandato e a Assembleia da República assumiu a necessidade de fechar este pacote, que já se arrastava há longos anos. Foi então aquilo a que todos assistimos: nós e o Conselho Superior fomos orientados a criar uma equipa de trabalho também com as organizações sociais, o SNJ e o MISA, e começámos a trabalhar. Após o trabalho técnico, fez-se um inquérito pelo país, realizámos um seminário aqui em Maputo e, obviamente, sendo a Assembleia da República a responsável pelas leis, relativamente aos aspectos registados durante o processo de auscultação não cabia a nós decidir. As equipas técnicas elaboraram um relatório e esse relatório foi submetido. Foi assim que o processo das leis surgiu, com a clareza de que nós, órgãos de comunicação social, não tínhamos chegado a um consenso, mas o legislador podia muito bem fazer a parte final – porque é, de facto, o legislador, e poderia fazê-lo melhor do que nós.
“Não é normal termos 300 televisões neste País”
D&F: O GABINFO defendeu a criação de uma taxa para quem quisesse criar órgão de comunicação, gerando polémica. Na qualidade de directora e jornalista, qual é a sua visão sobre esta questão?
EM: O decreto 40 de 2018 nasceu de uma verificação. Até este momento, para se abrir uma TV, todo o processo legislativo era feito a custo zero para o interessado. Montar uma televisão – por tudo o que fomos vendo – não custa menos de USD 200 mil, e uma televisão verdadeira está acima de USD 1 milhão. E nós pensámos assim: se alguém quer abrir uma televisão, tem de ter capacidade de equipá-la e de pagar a licença. Mas agora é tudo de borla. É por isso que temos 300 televisões neste país – não é normal. Os requisitos para aceder a uma licença praticamente não existem; é uma porta aberta. Por exemplo, a declaração de fundos: alguém traz um extracto bancário de 50 mil meticais. Como é que vai abrir uma televisão com 50 mil meticais? Mas eu também não tenho capacidade de dizer não, porque preencheu os requisitos. Num estudo comparado, vimos que uma pessoa tem de gastar USD 1 milhão para abrir uma televisão. Portanto, ter a capacidade de gastar um milhão de meticais para abrir uma televisão é o mínimo exigível.
D&F: Este princípio também reduziria a aglomeração de televisões?
EM: Ainda bem que chegou a este ponto. Hoje, sem citar nomes, temos canais que abrem e depois não conseguem pagar três meses de arrendamento ou três meses de salário. Temos pessoas que têm licenças nas mãos, mas é apenas por querer ter uma licença, porque não se paga. Precisamos de encontrar mecanismos para reduzir também a pressão sobre nós, administrativos. Quer ter uma licença de televisão? Tudo bem, que contribua com o pagamento de uma taxa. Assim, a pessoa pensará duas vezes se quer realmente ter uma licença de televisão. De facto, no decreto do Conselho de Ministros havia a previsão de que, para obter a licença de televisão, se pagariam taxas. Só que na Lei de Imprensa isso não constava, porque era uma lei para a imprensa escrita. É por essa razão que a nova Lei da Comunicação Social já contempla essa previsão. Era uma necessidade: para ter uma licença de televisão é preciso fazer alguma coisa. Mesmo para obter uma licença de rádio, é necessário que o GABINFO trabalhe com o INCM, e tudo isto a custo zero, a subsidiar o sector privado. Não é razoável. Podemos dizer que a fasquia foi um pouco alta, mas a necessidade continua lá.
D&F: Foi, em algum momento, citada como tendo preferências para cargos de administrador na TVM. Isso acontece? Se sim, por quê?
EM: Há duas partes: a primeira até 2018. Os administradores executivos da TVM e da RM eram nomeados pelo director do GABINFO, por inerência das funções. Em 2018, após indicação do PCA Faruco Sadique, foi a primeira vez que mexemos no Conselho de Administração da TVM. Tínhamos um Conselho de Administração desde 2015, para o qual propusemos os membros que foram depois nomeados, à excepção de um: por questões de familiaridade, não fiz a nomeação e apresentei escusa ao primeiro-ministro, pelo que ele foi nomeado de outra forma, ao contrário dos outros quatro. Em finais de 2018, foi aprovada a Lei do Sector Empresarial do Estado, segundo a qual os administradores passam a ser eleitos em Assembleia Geral, sendo também propostos pela Assembleia. O mandato dos administradores terminou em 2023. O accionista principal das empresas públicas é o Estado, e é o Estado que propõe os administradores para a sua eleição em Assembleia Geral. A partir daí, o director do GABINFO assume a sua responsabilidade, porque é ele o representante do Governo nas empresas de comunicação social, mas o director nem participa na Assembleia Geral, apenas se faz representar.
D&F: E não dá orientações ou um bilhetinho?
EM: Não, o accionista não precisa de fazer papelinhos. Havendo necessidade de intervenção, pode fazer uma proposta e votar. Mas o que estou a tentar dizer é que há uma percepção de que há apenas a mão do director do GABINFO – no entanto, essa é uma percepção anterior a 2018.
D&F: Há uma norma que limita os mandatos dos administradores?
EM: Há uma norma que diz o seguinte: a pessoa tem um mandato de quatro anos, renovável uma vez. Mas, mesmo que permaneça oito anos, só cessa com a nomeação de um substituto.
D&F: Está feliz com o desempenho da sua instituição? O que deseja melhorar?
EM: O GABINFO tem muitos desafios. O primeiro deles é a instalação. Os colaboradores do GABINFO são resilientes, mas penso que poderíamos beneficiar de melhores condições. Na parte relativa à assessoria do Governo, creio que, se tivéssemos melhores condições, poderíamos fazer mais, nomeadamente delimitar a linha entre a classe jornalística e a classe governante. Depois, há uma competência prevista por lei que é o apoio aos órgãos privados. Se saísse hoje e me perguntasse se saio feliz do GABINFO ou não, digo que não consegui, pelo menos, garantir que possamos apoiar a impressão de jornais dos órgãos privados ou apoiar um órgão para fazer deslocações a Nampula e a outras regiões do País para cobrir situações críticas. São estes problemas que me fazem desejar que esta área tenha mais pujança financeira.
D&F: Estamos no final da nossa conversa. Gostaria de acrescentar algo?
EM: Sim, vamos falar das Leis da Comunicação Social. Devo dizer que, neste momento, enquanto GABINFO, podemos nos dar por satisfeitos. Atingimos leis que nos permitem agir na nossa profissão com alguma dignidade. E digo mais uma coisa que as pessoas pensam: elas não cortam a liberdade. O Serôdio, hoje, não vai aceitar a minha orientação de capa, até porque nunca aceitou. Nós temos uma indústria da comunicação com muita liberdade no nosso país, e isso não vamos perder. Pelo contrário, vamos ganhar, porque a carteira profissional vai dignificar mais o profissional.




