António Muchanga, da Renamo desde a infância, deputado por vários mandatos e antigo portavoz de Afonso Dhlakama, recorda que, em 1992, teve de negociar com os guerrilheiros para conseguir circular entre Majacaze e Xai-Xai e casar. O político, que perdeu mais de dez familiares durante a guerra dos 16 anos, diz que a integração da Renamo nas Forças Armadas foi destruída e hoje é apenas “simbólica”. Numa entrevista ao Dossiers & Factos, por ocasião dos 34 anos do Acordo Geral de Paz, assinado a 4 de Outubro de 1992, em Roma, Muchanga revela ainda a história por trás de uma fotografia que circula nas redes sociais, onde aparece atrás de Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama.
Texto: Clara Mulima
Há memórias que se gravam no corpo e outras que se escondem nas fotografias. António Muchanga, notável político moçambicano ligado à Renamo desde a infância, guarda uma dessas histórias que a paz oficial nunca contou. Em 1992, antes da assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP) em Roma, Muchanga preparava-se para casar. A noiva vivia em Majacaze, no interior da província de Gaza, e a cerimónia seria em Xai-Xai. Entre uma e outra região, mais de 60 quilómetros de estrada vermelha e incerta – território onde a guerra ainda mandava. Para levar a noiva até ao altar, não bastava a vontade dos noivos. Foi preciso negociar com os combatentes.
“Tive que fazer acordo com os guerreiros para poder circular naquela zona”, recorda. O casamento não foi apenas uma cerimónia de amor: foi um exercício de diplomacia clandestina uma trégua privada no meio de uma guerra que não dava tréguas. E entre os convidados, entre os rostos que sorriram para a câmara, havia alguém que a guerra levaria para sempre.
“Quando fomos buscar as fotografias do nosso casamento, estávamos diante de uma vítima da guerra. Era uma pessoa muito importante na nossa vida”, lamenta. A fotografia que devia celebrar a vida tornou-se, também ela, um documento de perda.
Mas aquele desaparecimento, por doloroso que fosse, era apenas um entre muitos. A guerra não poupou ninguém – e a Muchanga arrancou-lhe mais de dez familiares durante os 16 anos de conflito. A mãe. O pai. Quatro irmãs. Três madrastas. Tios. Primos. “Minha mãe, que não voltei a ver; meu pai, que não voltei a ver; minhas quatro irmãs, que não voltei a ver. Minhas três madrastas, que não voltei a ver”, repete, como quem ainda procura esses rostos no vazio.
Alguns morreram em consequência de minas. Outros, de fome. Outros ainda, de doenças que não precisavam de ser fatais – cólera, diarreias – num País onde faltava tudo: assistência médica, comida, paz. Os anos de 1982, 1983 e 1989 ficaram-lhe marcados como os anos da seca, da fome e da morte invisível.
“Integração nas Forças Armadas foi destruída”
Se a entrada da Renamo no Parlamento foi, nas palavras de Muchanga, “a coisa visível” trazida pela paz – “o Parlamento deixou de ser tudo Frelimo” -, a integração nas Forças Armadas e nas forças de segurança seguiu o caminho inverso. “Tínhamos avançado muito nas Forças Armadas, mas tudo já foi destruído. A representação da Renamo nas Forças Armadas de Moçambique é simbólica”, afirma.
No exército, garante, a Renamo tinha elementos em todos os ramos. Na Polícia, não. Os antigos combatentes que chegaram a estar presentes em algumas esquadras foram progressivamente afastados de unidades como a Polícia de Protecção, a Polícia de Trânsito, a Polícia de Guarda-Fronteira e a Força de Intervenção Rápida.
Ninguém consegue, no entanto, afastar a curiosidade em relação a uma fotografia que circula na internet, que mostra Muchanga atrás de Joaquim Chissano e Afonso Dhlakama. A fotografia foi captada no Clube Militar, em Maputo, já depois da assinatura do Acordo de Roma, durante negociações que se prolongaram por mais de uma semana.
“Naquela altura, o Acordo Geral de Paz já havia sido assinado, mas havia um capítulo que não estava amadurecido e obrigou os dois Presidentes a assinar mais um protocolo”, explica. O protocolo tratava da integração das zonas sob controlo da Renamo na administração do Estado – Zitundo, Catuane, postos administrativos onde a Renamo indicava administradores, dava aulas às crianças e cuidava da saúde das pessoas.
Na referida fotografia, além de Chissano e Dhlakama, aparecem Raul Domingos, Armando Guebuza e o próprio Muchanga, que participou como um dos responsáveis pelo protocolo.
“Diálogo Nacional Inclusivo não vai dar em nada”
34 Anos depois, Muchanga olha para o presente com frustração. Instado a analisar o Diálogo Nacional Inclusivo ora em curso, afirma que “não vai produzir nada”. Para este político, um diálogo verdadeiro exige especialistas: religiosos para questões religiosas, desportistas para questões de desporto, artistas para questões culturais.
“Eu estou a sentir muita frustração na academia. A academia é que ilumina. Nós estamos a fazer um diálogo surdo, porque a luz está tapada”, afirma. E o dinheiro público gasto no processo devia, segundo ele, alimentar crianças nas pediatrias, mulheres nas maternidades, comprar reagentes e medicamentos, pagar horas extras a médicos e professores.
Já em relação ao terrorismo em Cabo Delgado, Muchanga recusa uma leitura simplista. “Temos que assumir que a situação da guerra em Cabo Delgado não se limita só àquele ponto. É Cabo Delgado, Niassa e Nampula”, afirma, defendendo que os dirigentes políticos e administrativos assumam que “o caminho que estamos a seguir não é perfeito” e que “os militares não podem fazer tudo sozinhos”.
Para Muchanga, há moçambicanos envolvidos na insurgência, combatentes que conhecem as línguas nacionais e o território. “Não é que eles estejam leves. Temos que assumir que o País não está bom”, diz, recorrendo à metáfora do corpo doente: quando uma parte adoece, mesmo pequena, todo o organismo sofre.
A paz como processo permanente
Para Muchanga, a paz não é a ausência de guerra. É a inclusão política, instituições funcionais, segurança, desenvolvimento e capacidade do Estado de responder às necessidades da população. É meritocracia – “o director da escola é um técnico, não precisamos de conhecer o cartão de membro do partido” – e é respeito pelas especialidades.
No fundo, a paz é também memória. No caso de Muchanga, é igualmente a memória de um casamento negociado com guerrilheiros, de uma fotografia que guarda um desaparecido, de mais de dez familiares que nunca voltaram. A memória de que a paz, essa, chegou às 15h de um domingo, 4 de outubro de 1992 – mas para muitos, continua a não refletir-se em desenvolvimento e mudança de vida.




