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Moçambique adopta “silêncio estratégico” face ao genocídio palestino

O conflito entre Israel e a Palestina, descrito em muitas paragens como um verdadeiro genocídio perpetrado pelo regime sionista de Benjamin Netanyahu, roubou as atenções ao mundo, relegando a guerra russo-ucraniana a um plano secundário. Considerando o facto de ser membro não permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), Moçambique tem andado por entre os pingos da chuva, não condenando Israel, naquilo a que Tobias Zacarias chama de “neutralidade estratégica”.

Texto: Amad Canda

A circunstância de alguns países não membros do Conselho de Segurança da ONU estarem a condenar abertamente Israel pelo genocídio em curso na Faixa de Gaza leva a que muitos moçambicanos exijam uma posição mais clara e incisiva contra o Governo de Netanyahu, quanto mais não seja pelo facto de ocupar o lugar de membro não permanente daquele órgão, em representação de África.

Indiferente à pressão, o Estado moçambicano mantém a neutralidade, tal e qual já o tinha feito em relação à guerra no Leste Europeu, que está a poucos meses de completar o segundo ano.

A isso, o especialista em relações internacionais, Tobias Zacarias, chama “neutralidade estratégica”, porque é baseada nos superiores interesses nacionais. É que, neste momento, explica Zacarias, “Moçambique precisa de Israel em termos de inteligência militar”, num contexto em que prevalece o desafio do combate ao terrorismo na província nortenha de Cabo Delgado.

“Moçambique está no Conselho de Segurança como membro não permanente. Tem apenas dois anos e assim que terminar esse período voltará para casa. Antes de condenar abertamente Israel, tem que se questionar como será a relação entre ambos os países depois de cumprido o mandato no Conselho de Segurança”, adverte.

Há, no entanto, mais condicionantes, sendo um deles a base de apoio de Israel, composta pelos Estados Unidos da América (EUA) e pela generalidade dos países ocidentais. “São estes os países que pagam quase tudo em Moçambique, eles é que apoiam o Orçamento do Estado”, observa.

 

A prevalência do interesse sobre a moral

O número 01 do artigo 20 da Constituição da República estabelece que “Moçambique apoia e é solidário com a luta dos povos pela libertação nacional e pela democracia”.

Tendo como base este postulado, Tobias Zacarias entende que o País devia posicionar-se ao lado da Palestina, visto que está a “lutar pela sua libertação”. O problema, prossegue Zacarias, é que, em política, a moral nem sempre serve, tendo muitas vezes de se vergar. “Entre condenar um parceiro nosso em termos políticos, estratégicos e militares e fechar os olhos perante um povo que luta pela sua libertação, o que é que vale a pena para os moçambicanos neste momento? É um dilema. Mas, em política, onde há vantagem é onde há negócio. Na política, a moral não serve muito. Os interesses nacionais estão em primeiro lugar e, neste momento, os interesses nacionais de Moçambique passam por Israel, o que justifica a ambiguidade”.

Mais adiante, o analista deixa claro que, pese embora julgue correcta a postura adoptada pelo Estado moçambicano, é contra o racismo praticado pelos israelitas, do qual os palestinos são as principais vítimas.

 

África dividida

Perante o genocídio que é infringido aos palestinos na Faixa de Gaza, a África do Sul decidiu, recentemente, romper as relações diplomáticas com Israel. Foi o Parlamento sul-africano que aprovou a medida, mas em toda a esfera política Israel é visto como carrasco, conforme deixou claro o presidente Cyril Ramaphosa na Cimeira Extraordinária dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

“O castigo colectivo de civis palestinos, através do uso ilegal da força por parte de Israel, é um crime de guerra”, declarou o estadista sul-africano, para quem “a negação deliberada de medicamentos, combustível, alimentos e água aos residentes de Gaza equivale a genocídio”.

Na opinião de Tobias Zacarias, esta é a única posição aceitável nas hostes dos vizinhos, não só porque a sua constituição assim o impõe, mas também por razões históricas. É que África do Sul foi submetida a décadas de apartheid, que só conheceu seu fim em 1991. Para além disso, salienta Tobias Zacarias, aquela que é tida como uma das maiores economias de África tem condições – já que não é dependente de doadores para exercer sua soberania nesse domínio – para condenar abertamente o regime sionista.

O mesmo se pode dizer da Argélia, que se opõe às atrocidades em Gaza. De resto, as relações entre Argélia e Israel andam há muito tremidas, basta lembrar que, em Maio do presente ano, os magrebinos renunciaram a sua vice-presidência do Grupo Consultivo de Combate ao Terrorismo da União Interparlamentar, em protesto contra a filiação de Israel ao grupo e solidariedade aos palestinos.

Em contrapartida, alguns países africanos colocam-se ao lado de Israel, sendo disso exemplo a República Democrática do Congo e Quénia, facto explicado, ainda segundo Tobias Zacarias, pelos seus interesses estratégicos. No caso do segundo país, haverá uma espécie de dívida de gratidão, como deixou transparecer à DW o historiador queniano Samuel Kiptoo.

“O que quer que aconteça a Israel, é de grande interesse para o Quénia como país. Quando Nairobi foi atacada em 1998, os israelitas foram os primeiros a aparecer e a salvar pessoas dos escombros”.

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